A Carta de Flávio
Artigo analisa os efeitos políticos da carta publicada por Flávio Bolsonaro após a derrota eleitoral e defende uma oposição pautada pelo diálogo e pelo respeito
Painel Econômico · · Atualizado em · 3 min de leitura

Flávio Bolsonaro publicou uma carta pública no dia 28 deste mês. O texto carrega em si um tom de frustração e desabafo. No segundo turno ele sofreu uma perda de votos substancial que lhe tirou o próximo e definitivo passo para entrar na presidência da república. Com essa carta ele pode ter perdido mais votos ainda e até o apoio de seu próprio núcleo de apoio. Se ele não sabia da dimensão adversa que o fato geraria, presunção de inocência; Se ele o fez por nítida proximidade com a soberba, que é uma presunção de vaidade, mas não de inocência.
Hoje ele deveria ser o guardião de 60 milhões de votos. Um fato notável frente a um candidato como Lula, experiente e vencedor, desde sua primeira eleição. De um senador de alcance regional, Flávio passou a ser cotado por inúmeros institutos de pesquisa para ser presidente da república. Tamanha era essa possibilidade que quase se elegeu no primeiro turno. Mas, parece que no intervalo para o segundo turno de votação teve a impressão de estar sentado na cadeira de presidente. FHC já tinha feito isso, literalmente, na campanha para prefeito de São Paulo contra Jânio Quadros, em 1985. Sim, aquele caricato Jânio quando de sua carta de renúncia. Aquela das “forças ocultas”. Algo assemelhado ao discurso de Flávio na carta.
Na véspera da eleição FHC fez uma foto sentado na cadeira de prefeito para a revista Veja. As pesquisas assim apontavam. Eis que Jânio venceu com 39,3% dos votos válidos (1.572.424 votos), enquanto FHC teve 35,8% (1.431.300 votos). Porém, o destino não foi ingrato ao perdedor, que viria a se eleger presidente do Brasil em dois mandatos (1994–2002), ao apoiar a possibilidade de reeleição. Aprendeu uma dura lição e mudou seu comportamento. O que vence é o resultado da urna, não a soberba. Ironicamente, Jânio mandou desinfectar a cadeira. Na posse, trouxe um inseticida e disse que “nádegas indevidas a usaram”.
A conquista de Flávio, representante da direita nessa recente eleição, não pode transformar-se em um picolé ao sol. Seria uma perda dupla. Dele e da direita. Lula perdeu três vezes atirando pedra no muro da oposição. Como fizeram outros ícones da esquerda. Assalto a bancos, sequestro de embaixadores, roubo de cofre e outras ações assemelhadas. Resolveu usar a frase de Engels. Os votos são pedras de papel. Com eles, ganhou o poder e a História registrou todos os meios que usou para nele ficar todos esses longos anos, incluindo o período de Dilma. Julgar a legalidade de seus atos ao longo desse tempo cabe às instâncias jurídicas no sentido da punição. Julgar a qualidade de sua gestão ao longo desse tempo cabe aos eleitores na plenitude democrática. Quando entende que ela não existe, cabe aos eleitores acionar as Instituições de proteção da democracia e, pelo voto, mudar a composição de um senado eventualmente omisso ou submisso.
Flávio não leu as cartas do cônsul e orador romano Marco Túlio Cícero ao escrever as catilinárias, para beber de sua fonte e se expressar melhor. Elas estão organizadas em quatro discursos célebres proferidos em 63 a.C. contra o senador Lúcio Sérgio Catilina. As três primeiras tratam de temas importantes. Na inicial reside a célebre frase: Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? Na segunda, avisa que os conspiradores que permanecerem na cidade correm perigo. E na terceira, apresenta provas e a confissão dos envolvidos.
O contexto que motivou seus discursos está no fato de que Catilina protagoniza um plano golpista para derrubar a República Romana após perder as eleições. Não quero aqui dizer que Flávio pensa algo assim. Seria muito leviano de minha parte e totalmente irresponsável. Muito menos dizer que há uma atentado à República. Ao contrário, esse artigo tem o propósito de dizer que qualquer oposição tem que ser feita com inteligência, respeito e pelas vias democráticas. Se alguém assim não procede, seja de esquerda ou de direita, tem que ser punido.
Minha intenção é apenas dizer que os tormentos existenciais decorrentes de uma perda podem ser superados, e a perda, recuperada quando bem administrada. Como disse Hamlet em suas últimas palavras, o resto é silêncio.

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