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ELEIÇÕES

Pasárgada, um refúgio otimista

Mais do que uma percepção de democracia, vivemos uma percepção de autoritarismo

Por Antonio Marcus Machado

Painel Econômico · · Atualizado em · 3 min de leitura

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Rumo a Pasárgada · ILUSTRAÇÃO CRIADA POR IA

De forma intensamente clara, alguns aspectos do momento eleitoral que vivenciamos avisam que o espírito democrático brasileiro está seriamente abalado. De modo significativo as pessoas têm muito receio de expressarem suas opiniões e, com isso, muitas janelas de inovação e criatividade são fechadas ou nem abertas; não parece haver regras de governança previsíveis e sustentáveis, e, assim, prevalece um mosaico de promessas esdrúxulas e fantasiosas; alguns veículos de comunicação tradicionais e algumas mídias independentes na maioria das vezes agem como se fossem torcidas organizadas e não jornalistas responsáveis por informações isentas, e, desse modo, lamentam derrotas ou comemoram vitórias. Parafraseando Vinícius, ao seu pesar, ou seu contentamento.

Nesse contexto, mais do que uma percepção de democracia há uma percepção de autoritarismo. De hedonismo aético. Isso é extremamente prejudicial à economia e ao desejado desenvolvimento econômico e social. No ambiente de construção do futuro econômico residem três principais atores: as famílias, as empresas e o governo. Uma tríade que se inter-relaciona. Que interage entre si em benefício da coletividade.

Quando não se sentem livres ou têm medo de usar sua liberdade, as famílias tornam-se pouco desafiadoras e criativas. Tendem a não ousarem ser pontos fora da curva e passam a ser micropontos de uma manada com antolhos. Não veem o horizonte; apenas um ponto no infinito. São incansáveis, obedientes e resignados. Não vivem em uma sociedade cujo espírito estimula o empreendedorismo, a destruição criativa de Schumpeter e a inovação em direção à prosperidade. A economia não galopa. Trota. E o pior, muitas vezes na direção errada. Chega tarde e no endereço errado.  

Já as empresas, quando asfixiadas por políticas econômicas calcadas em critérios ideológicos de um bem-estar ilusório, tendem a usar a estratégia de um rio em direção ao mar, ao contornar montanhas, barreiras naturais e barreiras artificiais criadas por seres humanos, para finalmente desaguar no oceano. Assim procedem as empresas que lutam para não entrarem em recuperação judicial. De certo modo, se submetem à lei de Darwin e Lamarck. As mais fortes ou as que mais se adaptarem terão sucesso. As demais não sobrevivem em uma democracia cujo mindset é mais atrapalhar que apoiar.

Por sua vez, o governo destrói ou anula elementos conhecidos como checks and balances, pilares basilares do Panteão democrático, quando Instituições constituídas para proteger o cidadão, seja ele família ou empresa, assumem posturas questionáveis em termos de isenção e imparcialidade. Essa índole nociva muitas vezes fica evidenciada ao longo dos anos até que ele passe a ser um feudo autofágico. A atividade econômica que nutre o crescimento econômico vem de uma construção que envolve muitos atores, inclusive intelectuais e artistas em geral. Sindicatos, cooperativas, associações de classe, e importantes órgãos assemelhados, são elementos estruturais muito importantes para que a matriz econômica resulte do debate construtivo, da formulação produtiva inclusiva e representativa. 

Essa tríade famílias, empresa e governo não é a locomotiva da prosperidade. Ela é a estação. A locomotiva somos nós, os cidadãos. E os trilhos, não importa de onde venham, devem conduzir a nação para a Pasárgada imaginada por Manuel Bandeira (1886-1968). Um refúgio idealizado. Uma utopia de liberdade que deveria abrir as asas sobre nós, proteger os nossos sonhos e nos dar sabedoria para realizá-los. 

Para alcançar a Pasárgada é preciso otimismo! O qual é um dom, dizem alguns poetas. Mas, um dom que se conquista. O Vaticano levou 350 anos para concordar com Galileu, quando sussurrou Eppur si muove, no Tribunal da Inquisição. Nós não temos um milionésimo desse tempo. 

Para nós, nos dias de hoje, até o amanhã é um longo tempo, como disse Bob Dylan.

Mas o otimismo, acompanhado do trabalho fértil, é a ponte que abreviará esse tempo até os umbrais da porta do lugar que chamaremos nossa Pasárgada.  

Antonio Marcus Machado

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Antonio Marcus Machado é professor

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