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PAINEL ECONÔMICO

A Miopia Comercial

Com projeção de déficit recorde de US$ 146 bilhões em manufaturados, indústria brasileira enfrenta pressão das importações e desafios de competitividade

Por Antonio Marcus Machado

Painel Econômico · · Atualizado em · 5 min de leitura

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A China é um país que merece um sincero e positivo reconhecimento pelos seus avanços nas questões econômicas. O modelo econômico adotado após o fim da liderança de Mao Tsé Tung retirou das condições de pobreza milhares de chineses, sob a rigorosa liderança de Xi Jinping. Enquanto Mao estimulava o Grande Salto, este adotou a estratégia de pequenos saltos articulados. Mao, ao seu modo e com consequências adversas, vislumbrou um projeto de nação para a China. O País vivia momentos de subsequentes guerras civis, dilemas com o Japão e o que ele não admitia e foi muito radical, com certa influência da cultura ocidental. O famoso Livro Vermelho trazia alguns princípios marxista-leninistas; o estímulo ao armamento do campesinato; e a ideia de que o povo é um corpo com duas pernas, o exército e o partido comunista. O Partido centralizava as decisões e exigia que fossem realizadas com controle draconiano: o partido lidera tudo. No campo das virtudes preconizadas, a importância do estudo permanente e do trabalho coletivo. Com esses fundamentos foi criada a República Popular da China, em outubro de 1949, vigente até os dias de hoje.

Já Xi Jinping, vislumbra um projeto de poder. Eliminou o limite de reeleições presidenciais em 2018 e mantém-se no poder, quase absoluto. Já deu por atingida sua primeira grande meta, ter uma sociedade moderadamente próspera e agora trabalha para alcançar a segunda, qual seja fazer da China um país socialista moderno, próspero e forte até 2049, centenário da República. Para atingir seus propósitos, definiu linhas de ação que incluíam questões habitacionais e o mercado imobiliário, além de investir em grandes projetos e obras de infraestrutura multiplicadoras de emprego e renda. Adotou um forte combate da corrupção, principalmente em relação a adversários políticos e recuperou o espectro da Rota da Seda, que surgiu durante a Dinastia Han, ao propor Um Cinturão, Uma Rota, divulgada em 2013 com a finalidade de conectar a China à Ásia, Europa e África. Um modelo ancorado em maciços investimentos em ferrovias, rodovias e portos, em vários locais, incluindo países em desenvolvimento como o Brasil.

Para tanto, foi o setor industrial exportador que alavancou o forte crescimento chinês. Depois da admissão na OMC em novembro de 2001, entrou no sistema comercial multilateral já em sua nova fase de globalização iniciada no começo dos anos 1990. Aumentou a demanda por commodities e inundou o mercado consumidor global com produtos de baixo preço e qualidade contestável, que no Brasil, receberam o nome de produtos xing-ling. Um dos fatores de sucesso comercial, além do preço baixo, é que atendiam às necessidades da rotina do dia a dia das pessoas de forma simples e clara em termos de uso. Especialmente no campo dos eletroeletrônicos e de itens de vestuário que tiveram ampla aceitação também. A formação do BRICS, cunhada logo após do atentado às torres gêmeas de Nova Iorque em 2002, criou uma forte ambiência de negócios e de influência geopolítica. O Brasil consolidou sua participação de forma pragmática e intensa.

Entretanto, este crescente movimento comercial, sem barreiras protetoras, afetou a indústria nacional. Conheço uma empresa que deixou de montar calçados aqui, fechou a fábrica e mandou fabricar na China, para então importar e vender no mercado nacional. A Globalização trouxe essa perspectiva fabril. Muitos outros aderiram a essa estratégia comercial. De tal maneira que, no atual momento, a China está presente na matriz industrial brasileira de forma substancial e estratégica. Pela ótica chinesa isso é muito bom. Mas o olhar sobre a indústria brasileira não é bom. Assim como não foi para os Estados Unidos e tomou-se um grande desafio para Trump resolver. Há uma clara percepção de desindustrialização embrionária no nosso país. Antes de atingirmos os patamares industriais necessários estamos sendo desprotegidos e sufocados pela ânsia chinesa com o carimbo do governo brasileiro.

O déficit da Balança Comercial de manufaturados deve chegar a 146,4 bilhões de dólares em 2026, de acordo com a Coalizão Indústria, que reúne entidades de quase todo o setor produtivo brasileiro, respondem por quase 50% do PIB industrial brasileiro e 60,6% das exportações da indústria manufatureira. No campo fiscal, totalizam aproximadamente R$ 500 bilhões em impostos pagos anualmente. Em 2025, esse déficit era de 134 bilhões de dólares. A indústria brasileira enfrenta um cenário de pressão crescente e perda de espaço dentro do próprio mercado nacional. O avanço expressivo de produtos manufaturados vindos da China tem acirrado a concorrência direta com as empresas locais, impactando a competitividade da produção nacional e ligando o sinal de alerta no setor industrial. As projeções do setor apontam para um déficit recorde de US$ 146 bilhões na balança comercial de produtos industrializados.

Este dado reflete a disparidade entre o alto volume de produtos manufaturados importados e a capacidade do país em exportar itens de maior valor agregado, evidenciando o processo de desindustrialização e a dependência do mercado externo. Essa dependência de manufaturados importados acarreta desafios estruturais sérios para a economia brasileira, os quais são inadiáveis e devem ser enfrentados com rapidez e eficácia. Entre as principais consequências desse não enfrentamento estão a hipossuficiência na geração de empregos qualificados no setor produtivo, a perda de competitividade interna e a intensificação da necessidade de políticas públicas eficazes voltadas para a modernização e proteção da indústria nacional.

Vários países europeus estão começando a fazer esse dever de casa. Os Estados Unidos também. Precisamos fazer o nosso. Colocar a culpa na China ou não reconhecer sua competente atuação é miopia da política industrial.

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