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Sexta-feira, 23 de out. de 2026
ELEIÇÕES 2026

Assim é, se lhe parece

Por Antonio Marcus Machado

Painel Econômico · · Atualizado em · 3 min de leitura

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Trump e os problemas com a porta-voz · ILUSTRAÇÃO FEITA POR IA

Recentemente aconteceu algo na presidência de Donald Trump que nos faz refletir sobre algumas posturas em relação à gestão de pessoas. Seja na iniciativa privada, seja no setor público. O presidente tem uma Secretaria de Imprensa, cargo também conhecido como porta-voz. Nesse cargo havia Karoline Leavitt, a qual, mesmo tratando de questões altamente polêmicas e complexas, teve um bom desempenho perante a opinião pública nacional e internacional. Com uma profusão tanto de críticas como de elogios. Ao seu modo, dominava os meetings com jornalistas. Transmitia a imagem de grande proximidade com o governo, não só com o presidente, e defendia ou tentava explicar suas decisões. É uma missão árdua, difícil de construir credibilidade. No meu entender, houve um presidente norte-americano que poucas vezes precisou de um porta-voz: Ronald Reagan. Mas Trump precisa muito e encontrou em Karoline a representação ideal. Formada em comunicação, com especialização em ciência política, tinha os skills necessários em sua formação acadêmica precedente. No mundo da prática e experiência em comunicação, trabalhou na NBC Sports em Boston. Trump reconheceu seu potencial e a convidou para o cargo na Casa Branca.

E chegou o dia em que ela pediu demissão. Irrevogável. Exatamente quando ele mais precisava de alguém que interagisse com os meios de comunicação, por conta de uma popularidade muito baixa. Nesse ínterim, Marco Rubio cobriu algumas lacunas. Mas não fazia sentido colocar o Messi dele na defesa. O que ganha o jogo político é fazer gols. Quando é necessário se defender de ataques é porque o próprio ataque é inoperante. E, com base em algumas sugestões e na sua própria percepção, escolheu Katie Zacharia. Uma lawyer sem ser attorney. Ou seja, graduada em Direito mas sem aprovação no bar exam. O exame da OAB, aqui no Brasil. Não há qualquer problema nisso. A pessoa só não pode advogar. E Katie, segundo a imprensa, omitiu essa condição ou mentiu sobre ela. O que é imperdoável para a opinião pública. Algo bem diferente no nosso país nos dias de hoje.

Cinco dias depois de assumir o cargo foi demitida. Ou “aconselhada” a sair. Isso depois de uma infeliz atuação em seu primeiro relacionamento público com os meios de comunicação. Foi uma atuação constrangedora. Algo improvável para uma pessoa que atuava como comentarista da Fox News. Talvez Trump tivesse imaginado que ela teria a mesma desenvoltura. Nervosa, insegura e errônea em suas respostas, não ficou mais do que 15 minutos em um evento que normalmente consome aproximadamente uma hora. Recebeu um bombardeio de críticas e ironias. Inclusive da Campaign for Accountability, uma organização que observa a ética política, nesse caso, o mentir. Como seria bom ter uma organização assim, merecedora de respeito e credibilidade, aqui no Brasil.

Registro esse fato para destacar a postura de um CEO de empresa, ou, no caso, o presidente de um país, ao poupar e proteger seus inadequadamente escolhidos para algum cargo. Assumiu a responsabilidade da escolha, reviu sua decisão e teve um diálogo franco com Katie. A primeira de sua família a fazer um curso superior e a primeira de sua família a ter um cargo tão importante, Mas, também, a primeira de sua família a ter percepções e posições políticas inadmissíveis e desrespeitosas amplamente divulgadas em suas manifestações públicas. E a primeira a ser demitida de uma função ímpar, de elevada responsabilidade

Trump fez uma escolha equivocada tanto na avaliação do background quanto na avaliação do foreground de sua porta-voz. No primeiro, houve a imprecisão acadêmica. A omissão de fatos ou a mentiras sobre os fatos. No segundo, na enviesada avaliação da imagem que ela projetou com suas opiniões pessoais desrespeitosas em relação à vários segmentos sociais.

Como disse o genial e genioso Oscar Wilde, “em assuntos de menor importância, a ficção faz mais sentido do que a realidade”. Mas, no caso, o assunto é de extrema importância. Está na hora de Trump e alguns de nossos próprios governantes lerem o ensaio wildeano “A decadência da Mentira”, de 1889.

Para que uma boa ideia, ou uma boa intenção, não seja apenas uma vaidosa interpretação da realidade. E, nesse sentido, cabe a leitura de Pirandello e seu clássico “Assim é (se lhe parece)".

Antonio Marcus Machado

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Antonio Marcus Machado é professor

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