Ir para o conteúdo
Sexta-feira, 16 de out. de 202626°C parcialmente nublado
PAINEL ECONÔMICO

O ócio criativo e a nova jornada de trabalho

Ter tempo para descansar, para ficar ocioso, é algo muito bom. Desde que sustentável e produtivo

Por Antonio Marcus Machado

Painel Econômico · · Atualizado em · 3 min de leitura

Compartilhar
Ócio Criativo · ILUSTRAÇÃO CRIADA POR IA

Domenico De Masi, conceituado sociólogo italiano, lançou um livro em 1985 com o título “O Ócio Criativo”, o qual promoveu diversos debates em todo o mundo. Era uma época em que o mundo do trabalho valorizava bastante os workaholics, com sua disciplinada dedicação ao trabalho intenso como fonte de virtude. A própria Bíblia assim reconhece na frase "Com o suor do teu rosto comerás o teu pão", encontrada em um dos versículos mais conhecidos da Bíblia Sagrada, Gênesis 3:19.

Para ele, com a sociedade pós-industrial, se fez necessário rever algumas condições, pois a produtividade e a inovação seriam forças resultantes do equilíbrio entre três sustentáculos: o trabalho, o estudo e o lazer. De tal forma que não configure preguiça ou falta de compromisso com prazos e responsabilidades temporais. O ócio criativo é a competência em saber conjugar essas variáveis de tal modo que tornem a atividade intelectual e profissional algo agradável, produtivo, inovador e prazeroso. Não é uma ausência de esforço. É o melhor uso do esforço.

Quando tento explicar isso aos meus alunos e amigos curiosos, uso o exemplo de Newton embaixo de uma macieira. O que muito ouvimos é que ele estava descansando sob uma macieira e uma maçã caiu em sua cabeça. E então descreveu a força da gravidade. Sempre digo que na verdade foi ele que deu um pulo, uma cabeçada na maçã e a derrubou. Estava ocioso aparentemente, mas com postura criativa. Desse modo, é importante termos momentos de descanso e reflexão criativa com base em leituras e/ou atividades de lazer. Conheço empresas que têm o cantinho do ócio criativo. Muitas vezes em jardins arborizados ou espaços internos para leituras e jogos voltados ao conhecimento ou apenas ao lazer mesmo.

Lembro-me de quando morei nos EUA, nos anos 1990, e conheci o modelo de trabalho microshifting. Quando voltei para o Brasil e assumi a presidência do IJSN tentei colocar esse modelo em vigor, mas era algo extremamente inovador. Haveria uma planilha das pessoas de cada setor em que colocariam datas específicas para resolverem questões de natureza pessoal, como mães de crianças de até quatro anos, consultas médicas, convívio com pais dependentes de algum apoio ou alguma providência. Sem perda de carga horária contratada. Tudo com limites e controles bem definidos.

Agora, quase 25 anos depois, com a questão do fim do regime de trabalho 6x1 e a proposta não igual, mas assemelhada, do senador Rogério Marinho eu decidi reler o livro do Domenico e minhas propostas não implantadas no IJSN. Depois de tantos anos continua sendo difícil adotar algo próximo do que propõe o senador. A imensa maioria dos trabalhadores neste regime de trabalho quer mesmo o fim da escala 6x1. Traduzindo em números estamos falando de quase 15 milhões de pessoas com carteira assinada e aproximadamente 1,5 milhão de empregados domésticos de acordo com dados do MTE (Ministério do Trabalho e do Emprego). Apresentam como defesa do argumento a importância do descanso e, para discurso de muitos políticos, a importância da convivência familiar. Um argumento bom, desde que sustentável. Sem alterar a remuneração, a tendência é penalizar o empregador e, eventualmente, reduzir a oferta de alguns serviços e produtos.

Ter tempo para descansar, para ficar ocioso, é algo muito bom. Desde que sustentável e produtivo. Dados do IBGE/PNAD mostram que o rendimento médio real habitual do trabalhador brasileiro é de R$ 3.762,00. Isso para um contingente de 39 milhões de pessoas com carteira assinada e empregadas no setor privado. Como diz o meu amigo do interior de Matilde, “não dá para botar o burro na sombra”. Se considerarmos a escolaridade, aqueles sem instrução perfazem em média aproximadamente R$ 1.518,00. Com ensino superior completo, R$ 6.947,00.

Ainda é preciso trabalhar mais, gerar muito mais renda e riqueza coletiva para dar uma cabeçada na maçã.

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.

Mais em Painel Econômico

Ver seção →