Afinal, o que é o Super El Niño e como ele afeta o Espírito Santo?
Previsão de estiagem e calor extremo com temperaturas até 3 ºC acima da média exige resposta integrada na saúde e no campo
Por Leandro Manhães
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 4 min de leitura
O Espírito Santo se prepara para enfrentar os desdobramentos de um fenômeno climático de extrema intensidade. Classificado cientificamente como um El Niño muito forte — e popularmente conhecido como "Super El Niño" —, o evento traz previsões de forte irregularidade nas chuvas, ondas de calor prolongadas e impactos severos tanto sobre os recursos hídricos e a produção agrícola quanto para a saúde pública da população.
Com previsão de temperaturas até 3 ºC acima da média e estiagens severas, especialistas e autoridades orientam produtores rurais e reforçam protocolos de saúde pública para mitigar os impactos da crise climática no estado.
Anatomia do "Super El Niño"
O El Niño consiste em uma interação oceânico-atmosférica caracterizada pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial desde a costa do Peru até a Austrália. O fenômeno ocorre quando a temperatura da camada superficial do oceano ultrapassa 0,5 ºC acima da média histórica por três meses consecutivos, como explica o meteorologista e pesquisador do Incaper Ivaniel Fôro Maia, que completa:
" Registrado ciclicamente a cada três a cinco anos, com eventos em 2023 e um novo ciclo iniciado em junho de 2026, o fenômeno é classificado nas categorias fraco, moderado, forte e muito forte. O evento atual atinge a categoria "muito forte", patamar em que a anomalia na temperatura das águas supera os 2 ºC acima da média. É essa magnitude que levou a imprensa a difundir o termo Super El Niño".
Seca e irregularidade na bacia do Rio Doce
No Espírito Santo, a distribuição das chuvas não será uniforme, mas a tendência geral aponta para uma acentuada instabilidade no regime pluviométrico. Os municípios localizados acima da bacia do Rio Doce registram a tendência mais forte de precipitações abaixo da média histórica.
A característica central do fenômeno no estado é a irregularidade: embora episódios isolados de chuva dentro da normalidade possam ocorrer em curtos intervalos, a marca principal do El Niño será o predomínio de longos períodos de estiagem durante a primavera e o verão, justamente nos meses em que se espera a recuperação dos reservatórios. As primeiras chuvas da estação, cruciais para recarregar os lençóis freáticos e abastecer as lavouras, tendem a ficar abaixo do esperado.
Calor extremo no campo
Junto à escassez hídrica, o trimestre entre outubro e dezembro projeta temperaturas cerca de 3 ºC acima da média. Esse aumento continuado se traduz em sucessivas ondas de calor e dias de seca intensa, impondo severas dificuldades ao trabalho agrícola ao ar livre.
No campo, o calor excessivo acarreta um gargalo técnico crítico: a elevação da temperatura do solo faz com que a água utilizada na irrigação seja rapidamente perdida por evaporação para a atmosfera, antes que as plantas consigam absorvê-la. O meteorologista do Incaper relembra um episódio que ocorreu no Estado durante o último El Niño.
"A gravidade do problema ficou demonstrada no evento de 2023/2024 na região sul do estado, entre os municípios de Vargem Alta e Alfredo Chaves, onde produtores rurais perderam safras inteiras por manterem o solo exposto, mesmo realizando irrigações constantes".
Estratégias na agricultura
Para evitar a repetição desses cenários, órgãos de extensão e pesquisa como Incaper e Idaf intensificaram a realização de palestras, workshops e dias de campo para orientar agricultores sobre medidas imediatas:
- Reserva imediata de água: Construção de pequenas barragens sob orientação técnica para armazenar o volume precipitado durante eventuais chuvas de primavera e verão.
- Manejo e cobertura do solo (palhada): Aplicação de cobertura vegetal com palha, sob orientação de um engenheiro agrônomo, para evitar o superaquecimento da terra, reter a umidade e conter a perda de água para a atmosfera.
Saúde Pública e o Programa Adapta SUS
Os reflexos do aquecimento global e do El Niño transcendem a agricultura. O Ministério da Saúde reforça que a crise climática é, fundamentalmente, uma crise de saúde pública, como afirmou o ministro da pasta Alexandre Padilha que conclui:
"Para evitar os erros observados durante a pandemia da Covid-19, como o negacionismo e a falta de cooperação com estados e municípios, foram implementadas ações nacionais de preparação por meio do programa Adapta SUS".
ㅤ
Entre as iniciativas destaca-se o Protocolo Nacional de Calor Extremo, inspirado em experiências da cidade do Rio de Janeiro e em diretrizes internacionais. As orientações de prevenção e cuidados — disponíveis tanto para profissionais de saúde quanto para famílias pelo aplicativo Meu SUS Digital — enfatizam a atenção prioritária e a proteção aos idosos diante do aumento da temperatura média.
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.




