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BETS NO ES

Bets somam R$ 400 milhões por mês no ES; veja o impacto na saúde

Estudo da Fecomércio-ES cruza dados de apostas, perfil dos apostadores e atendimentos na rede pública. O peso é maior nas famílias de menor renda.

Por Antonio Carlos Leite

Diretor de Jornalismo · · Atualizado em · 4 min de leitura

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Facilidade de acesso é apontada como o centro do problema: "o cassino está dentro do bolso". · FOTO: MAGNIFIC

Os capixabas fizeram 7,3 milhões de apostas on-line em junho de 2026. O valor apostado chegou a R$ 397 milhões. Os dados são do Sistema de Gestão de Apostas, do Governo Federal, e estão reunidos no Radar Econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Espírito Santo (Fecomércio-ES), divulgado em setembro.

Em um ano e meio, o volume cresceu quase 50%. Em janeiro de 2025, foram cerca de 5 milhões de apostas e R$ 268 milhões. O pico veio em outubro de 2025: 9,3 milhões de apostas e R$ 518,8 milhões em um único mês. Em 2026, o valor mensal tem ficado entre R$ 369 milhões e R$ 403 milhões.

O estudo segue esse dinheiro até dois destinos. O primeiro é o orçamento doméstico, onde a aposta disputa espaço com comida, contas e compras. O segundo é a rede de saúde. De janeiro a julho deste ano, o Espírito Santo registrou 564 atendimentos ligados a problemas com apostas, para 247 pessoas.

Onde se aposta mais

Quatro cidades da Grande Vitória concentram 54% das apostas do estado. Serra lidera, com 16,7% do total. Depois vêm Vila Velha (14,5%), Vitória (13,3%) e Cariacica (9,3%).

A conta por habitante muda o mapa. Em junho, a média estadual foi de R$ 95,81 apostados por morador. Segundo o estudo, Ibatiba, no Caparaó, chegou a R$ 279, quase três vezes a média. Marechal Floriano (R$ 201,48) e Vitória (R$ 155,38) aparecem em seguida. A capital também tem a maior frequência: 2,8 apostas por habitante no mês, contra 1,8 na média do estado.

O peso no orçamento

Pesquisa do DataSenado de 2024, usada no estudo, estima em 380 mil os capixabas com 16 anos ou mais que apostaram em sites ou aplicativos no mês anterior à entrevista. É 12% dessa população.

Quem aposta gasta, em média, R$ 212,31 por mês. O valor equivale a 6,1% do rendimento médio no estado, de R$ 3.320.

Nas famílias de menor renda, a mesma quantia pesa mais. Os capixabas de famílias com até dois salários mínimos gastaram, em média, R$ 222,91 por mês com apostas. Nesse grupo, 59% apostavam R$ 100 ou mais. Segundo o estudo, cerca de 31 mil pessoas dessa faixa comprometeram mais de 15% da renda familiar com as plataformas.

A margem dessas famílias é curta. Pelos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), famílias com até dois salários mínimos destinam 61,2% dos gastos a alimentação e moradia. O dinheiro da aposta sai, primeiro, do lazer e das compras. Quando o gasto cresce, alcança as contas da casa.

A Fecomércio representa o comércio e olha o fenômeno também pelo lado do varejo. Para a entidade, o dinheiro das apostas deixa de circular nas lojas e nos serviços locais, e as bets passam a disputar a renda do consumidor, sobretudo a parcela reservada a compras não essenciais.

Quem chega à rede de saúde

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Homens são 72,9% dos atendidos por problemas com apostas na rede pública do ES. · FOTO: MAGNIFIC

Os atendimentos cresceram ao longo do ano. Foram 50 em janeiro e 99 em julho, o maior número do período. O total de pessoas atendidas passou de 19 para 56 no mesmo intervalo. Como a maioria volta mais de uma vez, os atendimentos superam o número de pacientes.

O perfil é de adultos em idade de trabalho. Os homens são 72,9% dos atendidos, e a faixa de 25 a 34 anos reúne 38%. Metade tem ensino médio completo. Quase um terço declarou não ter renda.

Um dado desfaz uma imagem comum: 96,8% dos atendidos têm casa e família. O problema chega a lares com rotina, emprego e contas a pagar.

Os números registram apenas quem procurou atendimento. Os códigos usados pelo sistema de saúde incluem jogo e aposta em geral, sem separar as plataformas on-line.

O problema também está no ambiente

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Renata Bedran, ouvida no estudo, aponta a facilidade de acesso como o centro do problema. Antes, era preciso ir até uma casa de jogo. Hoje, resume, "o cassino está dentro do bolso", aberto 24 horas.

Para ela, o sinal de alerta aparece quando a pessoa perde a liberdade de decidir quando começar, quanto gastar e quando parar. Tentar recuperar logo o dinheiro perdido, esconder gastos, usar a verba das contas da casa e pedir empréstimos em sequência também são sinais. Ansiedade, alterações de sono e isolamento costumam acompanhar o quadro. Nos casos mais graves, há risco de suicídio, e perguntar diretamente sobre isso abre caminho para o cuidado.

A psicóloga defende uma resposta conjunta. Entre as medidas citadas estão regras mais duras para a publicidade, limites de depósito e de perda nas plataformas, ferramentas de autoexclusão eficazes e educação financeira nas escolas. Nos serviços de saúde, a recomendação é perguntar sobre apostas em todo atendimento de saúde mental. Nas empresas, criar canais confidenciais de apoio e preparar as chefias para acolher em vez de punir.

Onde buscar ajuda

- Unidades Básicas de Saúde e CAPS: Se você perceber que as apostas estão causando problemas, recomenda-se buscar apoio de equipes das Unidades Básicas de Saúde (UBS), dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) . O atendimento é gratuito pelo SUS, confira endereços e contatos das unidades do CAPS.

- CVV: Ligação gratuita pelo número 188, 24 horas, ou chat no site cvv.org.br.

Antonio Carlos Leite

Diretor de Jornalismo · Saúde

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