Ele nasceu com cardiopatia. E hoje desenvolve um coração impresso em 3D
Diagnosticado com cardiopatia congênita ainda recém-nascido, Gabriel Liguori criou um startup de bioimpressão de órgãos
Por Leandro Manhães
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 4 min de leitura
A história e a carreira de Gabriel Liguori se confundem com a própria evolução da cardiologia pediátrica no Brasil. Com apenas sete dias de vida, Gabriel deu entrada no Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) com o diagnóstico de cardiopatia congênita, uma má-formação estrutural que comprometia o bombeamento de sangue e a oxigenação adequada dos tecidos. Trinta e quatro anos depois, ele trabalha no desenvolvimento da bioimpressão de órgãos, ou seja, guardada as devidas proporções, é como ele buscasse imprimir um coração, por exemplo, em uma impressora 3D. Mas em vez de usar plástico ou resina, ele usa células vivas para construir tecidos humanos.
Aos dois anos de idade, Gabriel passou por uma delicada cirurgia cardíaca reparadora. Todo o seu crescimento foi acompanhado de perto por equipes médicas, o que despertou no garoto uma curiosidade profunda sobre o funcionamento do corpo humano e o desejo de dedicar sua vida à cura.
Aprovado na Faculdade de Medicina da USP, durante a graduação focou seus estudos em cirurgia cardíaca, tendo a oportunidade de trabalhar com diversos grupos. Inclusive com aquele que cuidou de um certo recém-nascido diagnosticado com problemas aos sete dias de vida
“Trabalhei com o grupo de cirurgia pediátrica do InCor, que, por acaso, foi o grupo que me operou anos antes lá.” - Gabriel Liguori
Foi nas salas de cirurgia e nas UTIs coronarianas da USP que Gabriel observou a escassez de doadores de órgãos.
“Só cerca de25% dos pacientes conseguiam um órgão, e o resto acabava ficando em fila ou morrendo na fila.” - Gabriel Liguori

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Dados do Ministério da Saúde divulgados em setembro de 2026 apontam que mais de 49 mil pessoas aguardam por um transplante no Brasil, sendo cerca de 45 mil por um rim.
Determinado a mudar esse cenário, no final de sua graduação o médico tomou conhecimento da engenharia que permite fabricar tecido em laboratório. Para dominar a tecnologia, Gabriel mudou-se para a Holanda, onde concluiu seu doutorado na Universidade de Groningen, focado na biofabricação de vasos sanguíneos.
A criação da TissueLabs
Ao retornar ao Brasil, em 2017, Gabriel estabeleceu um laboratório de pesquisas no próprio InCor. Contudo, percebeu que a pesquisa acadêmica isolada não seria suficiente para levar as descobertas rapidamente até o leito dos pacientes. Em 2019, fundou a startup TissueLabs ao lado do engenheiro de computação Emerson Moretto.
Atualmente sediada na Suíça, mas mantendo fortes raízes científicas com o Brasil, a TissueLabs é uma biotech pioneira na criação de plataformas de bioimpressão.
Diferente de um coração artificial mecânico, formado por bombas de titânio e motores que exigem baterias e apresentam limitações a longo prazo, o objetivo central da TissueLabs é criar órgãos biológicos utilizando as células do próprio paciente.
Mini corações 3D e o fim dos testes em animais
Enquanto o transplante de um órgão inteiro bioimpresso exige avanços regulatórios e tecnológicos de longo prazo, a tecnologia criada por Gabriel já gera impactos imediatos na medicina e na indústria farmacêutica com a substituição de testes em animais. A TissueLabs desenvolve fragmentos funcionais de tecidos em escala milimétrica (cerca de 1x1 cm), apelidados de "mini corações 3D", que batem em laboratório.
Tradicionalmente, novos fármacos são testados em roedores ou suínos antes dos ensaios clínicos em humanos. No entanto, a fisiologia animal frequentemente mascara efeitos tóxicos. Ao testar novas drogas diretamente em minitecidos humanos 3D, a indústria identifica arritmias ou cardiotoxicidade de maneira precoce, acelerando a descoberta de curas e evitando o uso desnecessário de animais.
Quando os órgãos chegarão aos pacientes?
Gabriel divide a evolução da engenharia de tecidos em três grandes fases temporais:
Presente (já em ensaios clínicos): tecidos estruturais e bidimensionais simples, como peles artificiais para vítimas de queimaduras graves e cartilagens (como a impressão de orelhas para reconstrução facial).
Médio prazo (5 a 10 anos): glândulas e tecidos vascularizados com funções metabólicas específicas, como o pâncreas (para o tratamento de diabetes), a tireoide e fragmentos hepáticos. Como o pâncreas depende primariamente da irrigação sanguínea para secretar insulina, ele pode ser implantado em locais alternativos (como a axila do paciente) sem depender de uma complexa reconstrução anatômica.
Longo prazo (mais de 10 anos + ensaios clínicos): órgãos complexos morfodependentes, cujo funcionamento exige uma arquitetura geométrica perfeita, como o coração e o pulmão. Após a consolidação em laboratório, a aprovação regulatória e os testes clínicos levarão de 7 a 15 anos adicionais.
Confira abaixo a entrevista de Gabriel Liguori para o PAINEL NEWS:

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