Vinícolas brasileiras superam preconceito, mudam de patamar e ampliam mercado
Com melhoria de qualidade e diversificação de rótulos, Garibaldi deixa de ser conhecida apenas por suas linhas populares. Não é caso único...
Por André Andrès
Beber, Viver, Comer · · Atualizado em · 5 min de leitura

Estamos no ano da graça de 1914. Os salões da elite brasileira são dominados por polcas, valsas, operetas, enfim, músicas europeias, consideradas de "bom gosto". O governo do presidente da República Hermes da Fonseca está no final e a primeira-dama, Nair de Teffé, resolve fazer uma noite de despedida. Fugiu do padrão: pegou o violão, começou a tocar e encheu os salões do aristocrático Palácio do Catete, no Rio, com os sons de "Corta-Jaca", delicioso maxixe de Chiquinha Gonzaga. Foi um escândalo. Rui Barbosa foi para a tribuna do Senado denunciar o maxixe como a “a mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”. Rui Barbosa, quem diria, se afundou no preconceito contra a produção nacional. Não foi o primeiro, não foi o último. Até hoje os produtos nacionais enfrentam resistência. Assim foi na história, assim é na vida, assim é no vinho.
Os rótulos brasileiros sofrem com julgamentos precipitados. Para muitas pessoas, se não houver alguma palavra francesa ou italiana no nome do vinho, ele nem merece avaliação. É um erro, porque, como vários degustadores dizem, França e Itália produzem alguns dos melhores e dos piores vinhos do mundo. De tempos para cá, no entanto, os produtores brasileiros têm conseguido mudar esse cenário investindo muito em qualidade, embora o preço dos vinhos nacionais ainda seja um obstáculo. E dentro dessa reação, há um outro movimento, igualmente vigoroso: o de vinícolas antes conhecidas apenas por suas linhas populares e hoje buscando um outro patamar de produção, de qualidade, de consumidor.
Parte desse movimento pôde ser constatada em recente degustação de espumantes e vinhos da Garibaldi, tradicional casa gaúcha, em Vitória. A cooperativa agrícola responsável pelo rótulo está perto de completar 100 anos. Ela nasceu em 1931, na cidade de mesmo nome. Cooperativas, como a Garibaldi, a Aurora, a Nova Aliança, têm obrigação de dar vazão a milhares de toneladas de uvas colhidas por centenas de famílias de cooperados. Durante muito tempo, isso significou fazer vinhos de menor qualidade. Até os produtores e enólogos perceberem a possibilidade de trilhar novos caminhos, em busca de brancos, tintos e espumantes de melhor qualidade.
Essa busca passa pela diversificação dos rótulos. Na degustação da Garibaldi foram apresentados desde espumantes clássicos até um tinto feito com uva ainda pouco conhecida no país, passando por um rótulo inspirado nos vinhos verdes portugueses. A variedade dos produtos cresce, a vinícola ganha prêmios internacionais (como a Medalha de ouro para o Espumante Garibaldi Chardonnay, no concurso Chardonnay du Monde, na França) e nacionais (são frequentes os prêmios na Vitória Expovinhos, para citar um exemplo local) e os rótulos passam a ser encarados de outra forma, pelo menos por quem não traz consigo o preconceito de quem só consome produtos estrangeiros.
A Garibaldi é um exemplo de trilhas também percorridas por outras marcas antes muito conhecidas apenas por seus rótulos mais populares. É o caso da Aurora, de onde saem desde o famosíssimo Sangue de Boi até o conceituado Millésime, ou da Galiotto, vinícola famosa por seus vinhos de garrafão, mas também produtora do Angelo, ganhador de prêmios no Brasil (como o Top Five) e fora do país, como no Grande Concurso de Bruxelas.
Como se vê, produtos populares podem ter enorme qualidade. É assim no vinho, é assim na vida, é assim na música. De todos os ritmos citados por Rui Barbosa em seu indignado discurso, o samba é a mais duradoura das danças selvagens. Atravessou o século e acabou sendo uma das bases da Bossa Nova, ritmo refinado, elegante, delicado. Como um bom rótulo de vinho brasileiro.

Os vinhos da degustação
Garibaldi Moscato Zero Álcool. A noite começou pelo improvável, e foi surpreendente. A bebida não passa por fermentação. É feita a partir do suco da uva Moscato, e o gás carbônico é adicionado lentamente em autoclave. Sem fermentação, o açúcar da uva não vira álcool, e daí o nível zero. Mira um hábito crescente: o de quem quer reduzir o consumo de álcool sem abrir mão da taça. Preço: entre R$ 23 e R$ 40.
Vinhas Vivas. Lançado em junho, é feito com as italianas Trebbiano e Prosecco. É um branco de baixo teor alcoólico e leve carbonatação, de perfil que lembra os vinhos verdes portugueses. O nome homenageia os vinhedos da Serra Gaúcha e as famílias que os cultivam há gerações. Vinho levíssimo, perfeito para o verão. Preço: em torno de R$ 30.
Espumante Garibaldi Viognier. Leva para as borbulhas uma uva branca que, no Brasil, aparece mais em vinho tranquilo, mas deve ser mais conhecida e apreciada. Espumante saboroso, fresco, bem refrescante. Preço: entre R$ 40 e R$ 60.
Garibaldi VG Reserva Ancellotta. O tinto da noite, da linha premium da cooperativa, é feito 100% com a uva e passa 10 meses em contato com carvalho francês e americano, em aduelas. A Ancellotta vem da Emilia-Romagna e é pouco conhecida do público, embora não dos produtores. Na Serra Gaúcha costuma entrar em corte para dar cor, e um estudo da Embrapa registrou nela intensidade de cor bem maior que a do Tannat. Vinho corpulento, estruturado, com longa vida pela frente. Preço: em torno de R$ 80.
Garibaldi Floratta. Servido na sobremesa, é um espumante rosé lançado em 2025, feito com Moscato de Alexandria, branca, e Moscato de Hamburgo, tinta. Frutado, adocicado, bom para encerrar os trabalhos. Preço: em torno de R$ 38.

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