Situação do PSD no ES pode "salvar" Psol e Rede no Brasil; veja como
Possível investigação sobre fraude à cota de gênero pode mudar porcentagem de cláusula de barreira, o que evitaria perda de recursos à federação das legendas
Por Rodrigo Péret
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 5 min de leitura
Uma possível investigação sobre fraude à cota de gênero envolvendo a chapa do PSD para deputado federal no Espírito Santo pode provocar uma reviravolta no resultado das eleições de 2026 e ajudar a Federação Psol/Rede a superar a cláusula de barreira em todo o país. A federação ficou a apenas 185 votos de alcançar, no Espírito Santo, o percentual mínimo de 1,5% dos votos válidos para deputado federal exigido pela cláusula de desempenho.
A Federação Psol/Rede recebeu 31.839 votos no Estado, o equivalente a 1,49% dos votos válidos. Para atingir o índice mínimo, seriam necessários 32.024 votos. A eventual anulação dos votos obtidos pelo PSD, caso a Justiça Eleitoral reconheça fraude à cota de gênero, reduziria o número total de votos válidos no Estado. Com isso, a proporção obtida pela federação poderia alcançar o percentual necessário.
A legislação eleitoral determina que os partidos e federações devem respeitar o mínimo de 30% e o máximo de 70% de candidaturas de cada sexo. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece que situações como votação zerada ou inexpressiva, ausência de movimentação financeira relevante e falta de atos efetivos de campanha podem ser consideradas elementos para caracterizar fraude. Em caso de reconhecimento do ilícito, os votos do partido podem ser anulados e os resultados eleitorais, recalculados.
Candidatas relatam falta de estrutura
O colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, em reportagem publicada nesta quarta-feira (8), ouviu candidatas do PSD no Estado, que afirmaram que foram colocadas na disputa sem receber estrutura financeira ou apoio adequado para a campanha. Uma delas é a pesquisadora Sandra Frasson, que recebeu 153 votos. Segundo relato reproduzido por Vecchioli, ela afirmou que as mulheres não tiveram estrutura para disputar a eleição.
“O meu incômodo é que nós mulheres não tivemos nenhuma organização, nenhum aparato para a eleição”, disse Sandra ao colunista. Ela também afirmou que não recebeu recursos para a campanha e relatou ter procurado o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab. “A gente tem garantia por lei de um recurso mínimo para aquilo que estávamos nos propondo. Como uma candidata vai se locomover sem o fundo eleitoral. Ou invisto do meu próprio recurso, ou pede doação. Eu mandei até e-mail para o [Gilberto] Kassab, mas não tive resposta”, afirmou, conforme publicado pelo Metrópoles.
Sandra contou ainda que estava em sua terceira candidatura e que chegou a considerar uma filiação ao Psol antes de optar pelo PSD. “Mas com o escândalo da Apex (Partners) foi um barata voa. E me vi em um partido em que não conhecia ninguém”, relatou à coluna.
Outra candidata que relata a situação é Jane Zanetti, de Colatina. Ela afirmou ter sido procurada por pessoas ligadas ao prefeito Renzo Vasconcelos, presidente estadual do PSD, para entrar na disputa de última hora. “Marcaram no dia seguinte e mandaram me buscar. Falaram que precisavam de uma mulher para vir candidata a deputada federal. E eu falei: ‘Mas eu? Vocês quer me colocar na boca do lobo’. Mesmo assim aceitei, porque eles prometeram dar todo apoio”, contou Jane ao Metrópoles. Segundo ela, porém, o suporte prometido não teria sido entregue.
“De lá para cá não deram apoio, não deram dinheiro, nada, simplesmente nada. Não deram apoio nenhum. Era para ter um carro para carregar a gente, levar, trazer, conhecer as cidades, como o Serginho fez”, afirmou. O “Serginho” citado por Jane é Sérgio Meneguelli, ex-prefeito de Colatina e candidato ao Senado pelo PSD nas eleições deste ano. De acordo com o relato das candidatas ao colunista, a estrutura partidária teria sido concentrada nas candidaturas de Meneguelli e de Da Vitória, que disputou uma vaga de deputado federal pelo PP.
Jane recebeu 122 votos e afirmou acreditar que sua candidatura foi registrada principalmente para que o partido cumprisse a cota de gênero. “Eles falaram que tinha que ter a cota feminina, né? Era para ter outra candidata, mas ela abandonou eles. Não tinham opção e botaram eu”, disse, segundo o Metrópoles.
Terceira candidata renunciou
Além de Sandra e Jane, o PSD registrou Cintia Nininha como candidata a deputada federal. Ela, entretanto, renunciou à candidatura em 14 de setembro, durante a campanha. Em entrevista ao jornal A Gazeta, Cintia afirmou que não recebeu recursos ou respostas do partido. “Não recebi nada, nem retorno. Eles não respondem nem marcam reunião pra explicar. Só dizem que não receberam nada. Não tem condições de eu trabalhar sem recursos”, declarou.
A situação relatada pelas candidatas ainda não significa, por si só, que houve fraude à cota de gênero. Uma eventual irregularidade precisa ser analisada pela Justiça Eleitoral, considerando as circunstâncias e as provas relacionadas à campanha.
Por que o caso pode beneficiar o Psol?
A Federação Psol/Rede não conseguiu superar a cláusula de barreira nas eleições de 2026 porque atingiu o percentual mínimo em oito Estados, quando eram necessários nove. No Espírito Santo, a federação chegou a 1,49% dos votos válidos e ficou a 185 votos do índice de 1,5%. Caso os votos do PSD sejam posteriormente anulados por decisão judicial, o número de votos válidos no Estado diminuiria. A consequência seria o aumento proporcional da votação dos demais partidos e federações. É nesse cenário que a Federação Psol/Rede poderia alcançar ou ultrapassar o 1,5% necessário no Espírito Santo e, consequentemente, cumprir um dos requisitos da cláusula de barreira.
A regra tem impacto direto no funcionamento das legendas, especialmente no acesso aos recursos do Fundo Partidário e à propaganda partidária. A federação já informou que pretende recorrer à Justiça para contestar o resultado.
PSD ainda não se manifestou
A Reportagem do PAINEL NEWS procurou o secretário-geral do PSD no Espírito Santo, Nilo Locatelli, e o presidente estadual da legenda, Renzo Vasconcelos, para saber o posicionamento do partido sobre os relatos das candidatas e a possibilidade de questionamentos judiciais envolvendo a chapa. Até o momento da publicação desta reportagem, não houve manifestação. O espaço permanece aberto para o PSD-ES. A notícia será atualizada caso o partido ou os dirigentes citados apresentem esclarecimentos.

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