Quem sabe faz a hora
Painel Econômico · · Atualizado em · 4 min de leitura
O Financial Times, um dos mais importantes jornais do mundo no campo da economia, colocou em sua capa da edição de 6 de outubro deste mês, o resultado do primeiro turno das eleições para a presidência da República no Brasil. Destacou a melhoria do otimismo do mercado financeiro e de capitais. De fato, as proposições do candidato Flávio, apresentadas por Daniela Marques, Adolfo Sachsida, são mais otimistas em relação ao equilíbrio fiscal e ao fortalecimento do Supply-side economics. Mas um aspecto que me chamou a atenção foi o destaque que a notícia deu às relações internacionais do atual governo com os EUA. A meu ver, relações míopes e equivocadas.
O headline da matéria de capa do conceituado jornal tem a frase Washington keeps keen watch, ou seja, mantém atenção vigilante, o que mostra o quão turbulenta é nossa relação com a América do Norte e o quanto é importante a existência de pontes. Essa turbulência não é boa nem para um, nem para outro. Então, enquanto estiverem como um rio turbulento, o melhor é manter as existentes e construir novas pontes de ligação de uma margem a outra. Destruir pontes é retrocesso diplomático. Trump, decisão acertada ou não, tem todo o direito de estabelecer tarifas. Isso já foi feito outras vezes por presidentes que o antecederam. Ele está tentando cuidar dos problemas do país que ele governa. Assumiu o cargo com uma dívida pública que se aproximava dos 40 trilhões de dólares para um PIB de 30 trilhões. Um país desindustrializado e com sérios problemas de entrada de ilegais via fronteira com o México. Além de uma agenda woke forte e conflitante com o conhecido american way of life.
Nosso presidente tem que cuidar dos interesses do Brasil sem alimentar ações de enfrentamento conflituoso e personalíssimo, mas sim, alimentar ações da diplomacia estatal e, principalmente, da diplomacia empresarial. Ironizar, parodiar e até ofender o Trump é aumentar a turbulência das águas e destruir pontes. Há questões estratégicas que podem unir os países. Como, por exemplo, o crescimento e o desenvolvimento da América Latina. Essa intenção norte-americana inicia-se com o presidente Monroe, passando por Kennedy e Clinton. O propósito de Monroe era proteger a América dos ataques europeus na conquista de terras. O de Kennedy, apoiar iniciativas sociais como o Aliança para o Progresso e o Peace Corps. O de Clinton, foi de aproximar as presidências. Ele e FHC tiveram um importante encontro em abril de 1995. Disse FHC: A vocação do Brasil e dos Estados Unidos é “stand together”. Permaneceremos juntos.
Porém, desde o primeiro governo Lula essa relação se deteriorou. Mais recentemente se agravou, com algumas declarações da primeira-dama Janja, do próprio Lula e do então ministro Haddad. Aproximar-se da China é algo natural, competitivo, mas alardear mudança de padrão monetário global; criticar a Argentina; usar a necessidade de defesa da soberania nacional; e criticar posturas em relação a Cuba e Venezuela de forma pouco diplomática e populista não beneficiam o Brasil. São questões que devem ser apresentadas nos fóruns globais como ONU e OMC, dentre outros.
Taxa e sobretaxa, por exemplo, que vão de 12 a 50%, prejudicam muito a economia capixaba em vários setores. Ceará e Espírito Santo são os estados mais afetados. Aço, rochas ornamentais e minério são os principais impactados. A participação dos setores econômicos da economia capixaba de 2025 registra que o agro contribuiu com 5,4%; a indústria com aproximadamente 28,5% e o setor serviços com 66%, segundo o Observatório da Indústria – FINDES. Ou seja, o impacto do tarifaço afeta nossas exportações e prejudica um setor muito significativo como o de Serviços voltados à exportação, que sofre muito.
A solução de diversificar mercados se faz inadiável. Mas não pode excluir os EUA. Temos que valorizar sua parceria comercial. E, penso eu, há um mercado com potencial imenso que é a América Latina. Fazer parte do movimento de fortalecimento da AL, liderado pelos EUA, é diplomacia estratégica. Poucos blocos econômicos e sociais têm as características da AL. As quais hoje são amplamente desejadas: Simplicidade dos idiomas; Petróleo e minerais críticos; Países pacíficos; Dois oceanos costeiros; O canal do Panamá, Fonte de alimentos; Clima tropical; Alta densidade populacional no norte e no sul; e Proteção bélica.
A hora é agora. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Chega de ideologias diplomáticas.

Antonio Marcus Machado
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