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DEVOÇÃO

Os sete milagres que fizeram de Nossa Senhora Aparecida a Padroeira do Brasil

Da rede vazia que voltou cheia de peixes em 1717 às correntes que se soltaram diante da imagem, os relatos que estão na origem da devoção

Por Redação Painel News

· Atualizado em · 5 min de leitura

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REPRESENTAÇÃO DO MILAGRE DOS PEIXES · IMAGEM GERADA POR IA

Neste 12 de outubro, milhares de fiéis chegam a Aparecida, no interior paulista, para rezar e agradecer. A cidade recebe milhões de visitantes por ano. Muitos vão cumprir promessas por graças que atribuem à santa: a cura de uma doença, um emprego, um filho que voltou para casa.

Essa fé tem origem em uma pequena imagem de barro retirada de um rio há mais de três séculos, e em uma sequência de milagres atribuídos a ela nos anos seguintes. Foram esses relatos que espalharam a devoção pelo país e fizeram de Nossa Senhora Aparecida a padroeira de um dos maiores países católicos do mundo.

O PAINEL NEWS reúne os sete milagres históricos que formaram essa história.

1. A pesca

Em outubro de 1717, a vila de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, se preparava para receber o Conde de Assumar, governador da capitania de São Paulo e Minas Gerais. A Câmara convocou os pescadores da região. Era preciso peixe para o banquete da comitiva.

Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso desceram ao Rio Paraíba do Sul com essa obrigação. O problema era a época: outubro não era tempo de peixe naquele trecho do rio. Eles lançaram a rede uma vez, e outra, e outra. Nada vinha. Voltar sem peixe significava falhar com a autoridade da vila diante do governador.

Num dos lances, a rede trouxe o corpo de uma pequena imagem de Nossa Senhora, sem a cabeça. Os pescadores lançaram de novo, e veio a cabeça. Juntaram as duas partes. Há relatos de que as peças se juntaram e não mais se separaram. Os pescadores envolveram a imagem num pano.

A partir dali, a rede passou a voltar cheia. Foram tantos peixes que os pescadores precisaram encerrar a pesca para não afundar a canoa. A encomenda estava cumprida, e a imagem seguiu com eles para casa.

2. As velas

Nos primeiros anos, a imagem ficou na casa de Filipe Pedroso, um dos três pescadores. Ele a levou consigo quando se mudou dentro da região, e a família guardou a santa por cerca de 15 anos. A notícia da pesca correu pela vizinhança. Aos sábados, moradores das redondezas se reuniam diante da imagem para rezar o terço.

Mais tarde, o filho de Filipe, Atanásio Pedroso, ergueu um pequeno oratório no Porto Itaguaçu, perto do ponto do rio onde a imagem tinha sido encontrada. Foi ali, numa dessas noites de reza, que aconteceu o primeiro milagre depois da pesca.

A noite estava calma, sem vento. De repente, as duas velas de cera que iluminavam a santa se apagaram. Os devotos ficaram no escuro, em silêncio. Antes que alguém se levantasse para reacendê-las, as velas voltaram a arder sozinhas.

A história se espalhou pelo Vale do Paraíba. O oratório ficou pequeno para tanta gente, e o vigário de Guaratinguetá decidiu construir uma capela. Ela foi erguida no alto do Morro dos Coqueiros e aberta aos fiéis em 1745. É o mesmo local onde está hoje a Basílica Velha, no centro de Aparecida. A cidade cresceu em torno da antiga capela.

O milagre da libertação do escravo, atribuído a Nossa Senhora Aparecida · ILUSTRAÇÃO CRIADA POR IA

3. As correntes de Zacarias

A capela no alto do morro ficava à beira do caminho por onde passavam tropeiros, viajantes e também capitães do mato que levavam de volta pessoas escravizadas que tinham fugido.

Um deles conduzia o escravo Zacarias, recapturado depois da fuga. Ele seguia a pé, com correntes nos pulsos e no pescoço, de volta para a fazenda de onde tinha escapado. Ao passar diante da capela, Zacarias pediu para parar e rezar à santa. O capitão do mato permitiu.

Zacarias se ajoelhou à porta da capela. Enquanto rezava, as correntes se soltaram do seu corpo e caíram no chão. Diante do que viu, o capitão do mato não o levou de volta. Zacarias foi libertado.

O milagre é um dos mais lembrados pelos devotos. Uma santa encontrada por pescadores pobres atendia agora a um homem escravizado. A devoção à Aparecida, uma santa negra, cresceu entre os escravos e seus descendentes.

4. O cavaleiro

A fama da capela chegava a lugares distantes, e nem todos a recebiam com fé. Um cavaleiro vindo de Cuiabá, em Mato Grosso, passava por Aparecida a caminho de Minas Gerais. Viu os romeiros subindo o morro e resolveu desafiar a devoção.

Disse que ia entrar a cavalo na capela, para mostrar que aquilo não passava de crendice. Esporeou o animal em direção à porta. Na escadaria de pedra, a pata do cavalo afundou e ficou presa, como se a pedra tivesse amolecido.

O cavaleiro caiu. Levantou-se, entrou na capela a pé e pediu perdão a Nossa Senhora. Saiu dali devoto.

5. A menina cega

Em Jaboticabal, no interior paulista, uma menina nasceu sem enxergar. A mãe, devota, prometeu levá-la até Aparecida para pedir a cura. As duas fizeram a longa viagem até o Vale do Paraíba.

Quando chegaram à entrada da cidade, ainda longe do templo, a menina falou para a  mãe que a bonita a igreja que aparecia no alto do morro era muito bonita. Foi assim que a mãe percebeu: a filha estava vendo pela primeira vez.

6. O menino no rio

O Rio Paraíba do Sul, que deu a imagem aos pescadores, também foi cenário de outro milagre. Um pai pescava com o filho pequeno na margem quando o menino escorregou e caiu na água.

A correnteza estava forte e levou a criança rio abaixo. O pai correu pela margem, sem conseguir alcançá-la. Em desespero, clamou a Nossa Senhora Aparecida.

A correnteza perdeu força. O corpo do menino parou nas águas, e o pai conseguiu retirá-lo do rio com vida.

7. O caçador e a onça

Um caçador voltava de uma caçada pelas matas da região quando se viu diante de uma onça. O animal estava a poucos metros, pronto para o ataque. Não havia tempo de preparar a arma nem para onde correr.

O caçador fez a única coisa que lhe restava. Pediu, em voz alta, a proteção de Nossa Senhora Aparecida. A onça parou, deu meia-volta e desapareceu na mata.

Da capela ao Santuário Nacional

Cada graça atribuída à santa levava mais gente ao alto do Morro dos Coqueiros. A capela de 1745, de taipa de pilão, ficou pequena e deu lugar, no mesmo local, a uma igreja maior, inaugurada em 1888 e hoje conhecida como Basílica Velha. No século 20, a devoção ganhou dimensão nacional. Nossa Senhora Aparecida foi proclamada padroeira do Brasil, e no morro vizinho começou a ser construído o Santuário Nacional, um dos maiores templos católicos do mundo. Ele ainda não foi concuído.

Na Sala das Promessas, fotografias, cartas, muletas e objetos deixados por fiéis seguem contando, hoje, a mesma história que começou numa rede de pesca, em 1717.

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