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CIDADANIA

A lição da professora que mudou a vida de jovens do Morro do Quadro

Em um território muitas vezes associado à criminalidade, a sensibilidade de uma professora abriu novas perspectivas para crianças e jovens através da música

Por Leandro Manhães

Repórter Multimídia · · Atualizado em · 5 min de leitura

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Em 2009, ao assumir uma turma de 4ª série na Escola Mauro Braga, a professora Luciene Pratti Chagas  se deparou com um cenário desafiador: alunos desmotivados, dispersos e alheios às aulas tradicionais. Diante daquela realidade vulnerável, a educadora compreendeu que discursos prontos sobre o valor da educação soavam distante para os estudantes.

Luciene Pratti Chagas - idealizadora do Instituto Serenata d'Favela · FOTO: AQUILES BRUM
"Na minha história de estudante eu tive professoras forte que me inspiraram ... eu dava aula em escola particular e os meus filhos estudavam em escola pública, e eu falava assim: um dia se eu der aula na escola pública, eu vou fazer diferente." - Luciene Pratti Chagas

O despertar de uma ideia: a música como ponte 

Ao observar a rotina da sala, Luciene notou que, em meio às conversas e brincadeiras, havia um ritmo constante: os alunos batucavam nas carteiras acompanhando versos de funk. Percebendo que a música era a linguagem que conectava aqueles jovens, ela decidiu mudar a abordagem. Foi para casa, pegou o aparelho de CD da mãe emprestado e levou para a sala de aula. A partir daquele momento, a música tornou-se o elo transformador entre a professora e a turma.  Canções de Renato Russo, do Legião Urbana, por exemplo, provocavam reflexões sobre a sociedade e o país. Começava ali um projeto capaz de mudar a realidade de centenas de pessoas.  

Da sala de aula ao cuidado social 

O que começou como uma estratégia pedagógica pontual para 10 a 12 alunos rapidamente ganhou corpo. Nos horários vagos e nos recreios, Luciene reunia estudantes para cantarolar. O grupo cresceu progressivamente para 20, 30, 50, até alcançar 75 participantes. 

Com a convivência diária, a sensibilidade da professora ultrapassou os limites do ensino musical. Ao conviver com as realidades dos alunos, Luciene percebeu que as necessidades iam além da arte: havia famílias enfrentando enfermidades, falta de alimentos e extrema vulnerabilidade habitacional. O projeto, então, expandiu sua atuação para o âmbito social e comunitário, prestando assistência direta aos familiares dos estudantes. 

O canto ganha vida

Contando com o apoio de amigos o grupo se consolidou, a iniciativa deixou de lado os cantos acompanhados por playback e evoluiu para a formação de um coral estruturado com regência de maestro, integrando também frentes de orquestra e balé. 

Toda essa mobilização culminou na criação do Instituto Serenata d'Favela, uma instituição concebida para atuar como ponte de oportunidades, aprendizado e cidadania para crianças e jovens. 

De aluna a liderança: a trajetória de Jaddy

O impacto duradouro dessa transformação reflete-se na trajetória de Jaddy Meira de Queiroz, hoje com 20 anos. Ela  ingressou no instituto ainda criança, aos quatro anos, e cresceu vivenciando o espaço como um ambiente de acolhimento, aprendizado e esperança. 

Jaddy Meira de Queiroz - cresceu junto com o Instituto, se tornou cantora e hoje orienta outras crianças
Jaddy Meira de Queiroz cresceu junto com o Instituto, se tornou cantora e hoje orienta outras crianças · REPRODUÇÃO PAINEL NEWS

Aos 10 anos, Jaddy realizou seu primeiro solo, tornando-se a solista principal do coral. Hoje, além de continuar interpretando os solos, ela atua ativamente na monitoria das crianças, Jaddy auxilia os mais novos a desenvolverem a técnica vocal, ajustarem o tom e aprenderem a ler as letras das músicas ao lado do maestro. Sua história simboliza o ciclo de continuidade do projeto, no qual quem aprendeu no passado passa a guiar o futuro das novas gerações. 

As origens no Morro do Quadro

O instituto está localizado no Morro do Quadro, comunidade situada na região da Grande Santo Antônio, em Vitória. A ocupação inicial da região ocorreu na primeira metade do século XX e seguiu um processo de expansão motivado por obras e migrações. 

O historiador Marcus Vinícius, destaca que entre 1910 e 1950, a comunidade se consolidou fortemente como um bairro de operários.  

Marcus Vinícius - historiador · REPRODUÇÃO PAINEL NEWS
"Grande parte da população era composta por migrantes do Nordeste e de outros estados que vieram trabalhar em grandes obras e empreendimentos no Espírito Santo que exigiam trabalho braçal, tais como a construção das Cinco Pontes, a vinda da CST e a implantação da UFES" . 

Não existe um registro oficial em órgãos governamentais que confirme a origem exata do nome, contudo, a explicação apoia-se em versões populares que circularam na comunidade. A versão mais famosa e aceita  faz alusão à praça do morro, que possuía o formato de um quadro. Por ser o centro de sociabilidade, ponto de encontro e palco de discursos políticos, essa praça tornou-se o local mais conhecido da região e acabou batizando todo o bairro,  Alguns moradores também relacionavam o nome à paisagem do local, alegando que ela se parecia com um quadro. 

Criminalidade e tráfico de drogas  

Casas no Moro do Quadro · REPRODUÇÃO PAINEL NEWS

A criminalidade e o tráfico de drogas, historicamente ligados ao Morro do Quadro, são apontados por Marcus Vinícius como consequências de uma estrutura social e racial profundamente desigual.  

Para o historiador, essa condição é imposta a territórios marginalizados pela sociedade, fazendo com que o crime acabe sendo visto, por alguns, como uma alternativa de sobrevivência dentro desse contexto. No entanto, o Morro do Quadro destaca-se fundamentalmente por ser um verdadeiro "exportador de cultura" .

"O Instituto Serenata d'Favela, Leozinho Sambista, o César MC, a própria Chega Mais e diversos elementos culturais tentam amenizar essas fragilidades e mostrar para o mundo que esses locais são propiciadores de cultura e arte."  - Marcus Vinícius

César MC: embaixador do Instituto 

Entre as grandes referências culturais formadas no Morro do Quadro está o rapper César MC, artista que alcançou projeção nacional levando a poesia e a vivência da favela para todo o país. 

Demonstrando o laço profundo com suas origens e com o impacto do projeto, César MC tornou-se embaixador do Instituto Serenata d'Favela. Além de apoiar a causa, o artista gravou em 2019 a música Canção Infantil com os jovens do instituto, unindo sua voz à dos estudantes e simbolizando o alcance transformador da arte quando se oferecem oportunidades e horizontes para a juventude. ㅤ

Um futuro construído em conjunto 

Como resume a própria professora Luciene, o objetivo do trabalho nunca foi se rotular como um "projeto de resgate", mas sim oportunizar sonhos e horizontes.

" Não estamos aqui discutindo tráfico porque eu não tenho a solução para ele, eu não tenho essa capacidade. Nós somos respeitados pelo que a gente faz aqui, por todo mundo que mora e vive nesse lugar. E é isso que a gente quer fazer". - Luciene Pratti

Ao transformar o som dos batucados em coral, orquestra e cidadania, o Instituto Serenata d'Favela reafirma que a educação aliada a arte é capaz de ressignificar territórios e abrir caminhos para o futuro.

Leandro Manhães

Repórter Multimídia · Cotidiano

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