IA nas escolas: a resposta fica fácil, mas o aprendizado vira desafio
Pesquisas apontam riscos do uso inadequado da IA para a aprendizagem; em Santa Maria de Jetibá, uma escola mostra sucesso ao integrar a tecnologia ao ensino
Por Rodrigo Péret
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 12 min de leitura
A inteligência artificial (IA) já faz parte da rotina dos estudantes, que recorrem a chatbots para pesquisar assuntos, resumir textos, organizar trabalhos e até produzir respostas. Mas como as escolas podem lidar com essa nova realidade sem transformar o aprendizado em uma terceirização do esforço de pensar?
Os resultados mais recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), divulgados em setembro, mostram que a inteligência artificial já entrou na rotina escolar de grande parte dos adolescentes brasileiros. Entre estudantes de 15 anos, 48% afirmaram usar chatbots de IA pelo menos uma vez por semana para ajudar a aprender. Ao mesmo tempo, 51,2% disseram ter atividades na escola para avaliar a qualidade das informações produzidas por essas ferramentas — percentual abaixo da média de 62,6% dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que realiza o Pisa de três em três anos e contou com 91 países na última edição.
Além disso, no Brasil, 40% também recorrem à IA para fazer pesquisas preliminares sobre novos assuntos, 31% para resumir textos e 27% para elaborar rascunhos de trabalhos. Apenas 11,3% disseram não utilizar a tecnologia em nenhuma das atividades investigadas pelo Pisa. Portanto, é possível dizer que a inteligência artificial já faz parte da forma como muitos alunos estudam. O desafio agora é fazer com que esse uso continue produzindo aprendizagem, e não apenas respostas.
Uma escola que decidiu olhar para o processo

Em Santa Maria de Jetibá, na Região Serrana do Espírito Santo, a Cooperativa Educacional Centro-Serrana (Cooperação) decidiu partir justamente dessa preocupação. A instituição, que atende 264 estudantes da educação infantil ao ensino médio, usa desde 2025 recursos de IA para acompanhar o desenvolvimento dos alunos.
A experiência utiliza recursos de IA da plataforma Geekie One para transformar o desempenho cotidiano em informações que possam ser acompanhadas por professores e gestores. Uma das ferramentas aplica avaliações baseadas na Teoria de Resposta ao Item (TRI), permitindo acompanhar a evolução individual dos estudantes.

Nas atividades realizadas diariamente ou depois das aulas, o sistema registra informações como acertos, tempo de resolução e dificuldades. Com isso, a escola consegue observar não apenas o resultado de uma avaliação, mas a trajetória que levou até ele.
“Da educação infantil e até o 5º ano, o monitoramento é contínuo e voltado ao conteúdo e ao desenvolvimento do processo de aprendizagem, com ênfase no desempenho dos professores e, por consequência, no dos alunos”, afirma Charles Moura Netto, diretor da Cooperação.
Na devolutiva mais recente da plataforma, a instituição ficou 10,4% acima da média nacional de referência em desempenho e 19,3% acima em engajamento. Todas as séries avaliadas ficaram acima da média de referência, segundo a escola.
A mudança alterou também a forma como as famílias acompanham o percurso escolar dos filhos. É o que percebeu Fredy Holz, gerente de TI e Inovação da Nater Coop, cooperado da Cooperação e pai dos alunos da instituição Gusttavo e Elena – de 14 e 9 anos, respectivamente. Holz conta que, antes do envio dos relatórios semanais, acompanhava o desempenho dos filhos de forma pontual, com foco na entrega de trabalhos, nas notas de provas e em reuniões dos plantões pedagógicos.

"A gente acabava sabendo do resultado apenas quando o ciclo já tinha fechado. Agora, consigo sugerir que ele faça atividades complementares ou que busque apoio com o professor na semana seguinte, transformando o relatório em uma ferramenta de diálogo, e não apenas de cobrança", recorda.
Na avaliação da diretora pedagógica da Cooperação, Sandra Maria Guisso, a IA não irá, necessariamente, tirar o protagonismo dos professores no processo de ensino. "É uma tecnologia que funciona como um recurso que o professor tem para obter informações que permitirão que ele direcione adequadamente seus esforços, para que assim haja melhor aproveitamento de seu trabalho pedagógico", detalha.
Alunos colocam a IA em prática em escola

Além da experiência da Cooperação em Santa Maria de Jetibá, o Centro Educacional Leonardo da Vinci, em Vitória, também tem buscado trazer a IA para o ambiente educacional. Em julho deste ano, a escola da capital realizou, pela primeira vez, o Dia da IA, iniciativa inspirada em uma ação semelhante do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e incentivada pelo grupo Inspired Education, mantenedor da escola.
A atividade reuniu alunos do Ensino Fundamental II e das 1ª e 2ª séries do Ensino Médio em equipes, que receberam o desafio de produzir vídeos sobre temas como “IA: amiga ou vilã?”, “O mundo em 2050” e “Impacto da IA na sociedade”. As produções deveriam ser realizadas integralmente com o uso de diferentes ferramentas de inteligência artificial. Os melhores trabalhos, escolhidos por uma comissão de professores, receberam certificados de reconhecimento.
“O Dia da IA foi muito bom para conhecermos tecnologias novas para usar em estudos e na criação de vídeos. O tema que escolhemos foi ‘E se os objetos falassem’. Criamos o personagem Mabri para testar nossa criatividade e as ferramentas. Foi mais fácil do que imaginávamos. Achamos importante a escola incentivar os alunos a mexerem com a IA, porque é algo novo, muito valorizado, o futuro. Também foi muito divertido e nos ajudou a trabalhar em equipe e conhecer IAs para estudar e fazer os projetos da escola", contam os alunos Gabriel Mazzei, Heitor Martinelli, Antônio Vairo, Pedro Mappa e Marcelo Sarmenghi, que formam o grupo que conquistou o 3º lugar na categoria I (6os e 7os anos) com o vídeo intitulado “A aventura de Mabri”.
Entre a proibição e o uso sem controle
A experiência da Cooperação mostra uma possibilidade: usar a tecnologia para ampliar a capacidade de acompanhamento dos professores, sem transferir para a máquina a responsabilidade pelo aprendizado. Mas existe o caminho contrário — quando a IA deixa de apoiar o estudante e passa a fazer por ele.
Na China, um estudo realizado pelo economista sueco David Strömberg e pelos pesquisadores Victor Lei e Yanhui Wu, da Universidade de Hong Kong, com 26.811 estudantes do 7º ao 12º ano, acompanhados durante 30 meses, observou que, entre os alunos que utilizaram IA, o tempo necessário para concluir as tarefas de casa caiu cerca de 30% e as notas dessas atividades aumentaram 18%. Nas provas mensais, realizadas sem a ferramenta, porém, as notas caíram 20% em seis meses.

Professor de Ciência da Computação da Estácio e profissional da área de tecnologia, Genilson Cruz avalia que o risco não está na existência da ferramenta, mas na possibilidade de ela substituir o raciocínio do estudante. Segundo ele, o uso indiscriminado pode tornar mais rápida e fácil a conclusão de uma tarefa, mas também impedir o desenvolvimento adequado do raciocínio. Estudos sobre o chamado descarregamento cognitivo, afirma, indicam que a dependência de sistemas de IA pode reduzir o pensamento crítico quando o usuário transfere para a tecnologia o processo de avaliar e decidir. Para o professor, essa diferença é especialmente importante entre crianças e adolescentes, que ainda estão em processo de formação.
A experiência de quem está em sala de aula mostra que essa orientação pode ser incorporada ao próprio exercício escolar, como explica a contadora e professora Claudiane Macedo, que dá aulas para alunos de nível médio da rede pública e também coordena um curso profissionalizante para adultos. Ela defende que o aluno seja estimulado a usar a ferramenta, mas também a confrontar suas respostas e manter a elaboração própria.
“O professor pode e sabe como induzir o aluno a usar a ferramenta e não deixar de pensar. Mesmo que você tenha a ferramenta, você tem que induzir a pensar”, afirma, citando que permite, por exemplo, que os estudantes recorram à IA para pesquisar e criar modelos de planilhas, mas exige que os alunos preencham os dados e confiram as informações, numa forma de transformar a ferramenta em um apoio ao raciocínio, e não um substituto.
Já para Eduardo Glazar, CSO da Globalsys e professor de Engenharia de Prompt da Fucape, os resultados da pesquisa na China, bem como a experiência da Cooperação, ajudam a mostrar que o momento e a forma como a IA entra no processo de aprendizagem são determinantes. Ele relaciona essa preocupação ao conceito de “dívida cognitiva”, discutido em um estudo do MIT Media Lab sobre o uso de ChatGPT em tarefas de escrita.

"Aprender a escrever um argumento exige organizar ideias, errar e reescrever, que é uma etapa que a IA acaba eliminando quando entrega um texto pronto. Ela deve funcionar como uma ferramenta de apoio ao raciocínio, que deve permanecer sendo do aluno".
Glazar avalia que as escolas devem fazer com as IAs algo semelhante ao que ocorreu com a calculadora. "Não adianta querer proibir. É preciso adaptar a metodologia e a avaliação para que esse recurso entre como apoio ao raciocínio, que deve continuar sendo feito pelo aluno", afirma.
O CSO da Globalsys também defende maior utilização de avaliações orais, defesa de trabalhos, produção em sala de aula e problemas contextualizados. Na Fucape, onde leciona Engenharia de Prompt – técnica de elaboração de instruções para obter resultados úteis de sistemas de IA –, Glazar relata incorporar a tecnologia à disciplina e avaliar os estudantes pela capacidade de construir e defender o raciocínio desenvolvido com a ferramenta. “O papel da escola é formar o aluno que comanda a IA”, afirma.
Para Lorena Bezerra Vieira, coordenadora do curso de Pedagogia da Estácio, essa mudança também ajuda a enfrentar uma versão mais sofisticada de um problema antigo: a “cola”. A diferença está no trabalho intelectual necessário. A “cola” tradicional exigia que o estudante selecionasse conteúdos, sintetizasse informações e produzisse anotações. O uso passivo da IA pode eliminar essas etapas.
Por isso, Lorena defende que as escolas priorizem atividades autorais em sala de aula e acompanhem rascunhos e etapas intermediárias da produção. A professora considera possível utilizar a IA como apoio em pesquisas iniciais e na organização dos estudos, mas o estudante deve permanecer responsável pela elaboração do conteúdo e pela construção do próprio raciocínio.
“Ao experimentar o valor da própria produção intelectual, o estudante passa a perceber que delegar o trabalho integralmente à máquina não é uma vantagem, mas sim uma abdicação do seu próprio desenvolvimento, do seu pensamento crítico e da sua voz autoral”.
Limites devem ser previstos pelas instituições

Para Carlos Augusto Pena da Motta Leal, advogado especialista em Direito Digital e presidente da Comissão de TI e Direito Digital da OAB-ES, as escolas devem estabelecer regras próprias para o uso de IA.
O mais importante, segundo ele, é que as regras sejam definidas antes das atividades e deixem claro o que é permitido, o que exige declaração do uso da ferramenta e o que é proibido. Uma instituição pode permitir IA para pesquisa e apoio ao estudo, exigir que o estudante informe quando utilizou a ferramenta e impedir seu uso em avaliações destinadas a medir a produção individual.
Isso também muda a discussão sobre plágio. Um trabalho produzido integralmente por IA não precisa ser automaticamente tratado como plágio tradicional. Dependendo das regras da instituição, pode representar violação das normas de avaliação ou falsa apresentação de autoria e esforço intelectual. Para Motta Leal, quanto mais clara for a regra, menor a margem para conflitos posteriores.
Na avaliação do advogado, detectores de IA acrescentam outra camada ao problema, já que podem produzir falsos positivos e, por isso, não deveriam ter seu resultado utilizado de forma isolada para reprovar ou punir um estudante.
"Uma investigação mais segura pode considerar trabalhos anteriores, histórico de edição do documento, fontes utilizadas, metodologia e, principalmente, a capacidade do aluno de explicar oralmente aquilo que entregou. Quanto mais grave a consequência para o estudante, maior deve ser o cuidado na apuração".
O desafio chegou ao Conselho Nacional de Educação
A discussão já alcançou também o poder público. Em setembro de 2026, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou diretrizes para o uso de IA na educação básica e no ensino superior. O texto foi encaminhado para homologação do Ministério da Educação (MEC).
Entre as diretrizes aprovadas estão a exigência de revisão humana dos conteúdos produzidos por IA, a proibição do uso autônomo de ferramentas generativas por estudantes até o 5º ano do ensino fundamental e a vedação ao uso de IA para correção e atribuição de notas em redações e provas dissertativas.
Caso homologadas, as regras vão estabelecer limites para a participação da tecnologia no processo educacional e reforçam a necessidade de supervisão humana em determinadas atividades. O debate deixa de se resumir à oposição entre “liberar” e “proibir” e passa a envolver também quando, como e para que a ferramenta deve ser utilizada.
Uma nova realidade trazida pela ferramenta

Para os especialistas consultados, a IA veio para mudar de vez a relação entre esforço e resultado no ambiente de ensino. Se até sua implementação um professor podia olhar para uma redação bem escrita ou para um exercício resolvido e ter uma indicação razoável de que o aluno havia desenvolvido aquelas habilidades, hoje ele precisa ir além na sua forma de avaliar o aluno para não ser enganado por um mero texto pronto feito pela tecnologia.
Isso mostra que o resultado final, sozinho, passou a dizer menos do que o processo que o produziu. E é por isso que a experiência em Santa Maria de Jetibá interessa além dos limites da própria escola: a Cooperação tenta usar a tecnologia para tornar o processo mais visível, buscando avaliar quem está aprendendo, em qual ritmo, onde estão as dificuldades e que conteúdos precisam voltar para a sala de aula.
Neste ponto, a experiência cooperativista se conecta ao problema mais amplo colocado pela presença da IA nas escolas, mostrando que a tecnologia pode ser utilizada para produzir informações que ajudem professores e famílias a compreender o caminho percorrido até o resultado. A tecnologia pode pesquisar, resumir, revisar, explicar, propor exercícios, identificar padrões e ajudar professores a acompanhar centenas de estudantes. Mas a integração só faz sentido se, ao final, o aluno continuar aprendendo a pensar, argumentar, resolver problemas e construir conhecimento por conta própria. Porque, quando a tela for desligada, é isso que precisa permanecer.

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