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Quem disse que o brasileiro não lê?

Por Marli Siqueira Leite

Linguagens · · Atualizado em · 7 min de leitura

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Clube de leitura · IMAGEM CRIADA POR IA

"O brasileiro não lê". A sentença circula há tanto tempo que ganhou ares de provérbio: repete-se em rodas de pais, reuniões pedagógicas e em posts de redes sociais, sempre com a firmeza de quem nunca conferiu a assertiva de fato. Vamos com calma! É preciso ir aos números, recorrer a especialistas, observar a realidade com lentes poderosas, considerando quantidade, qualidade e muitos outros fatores.

Em setembro deste ano, saiu a avaliação do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), aplicada em 2025. Os estudantes brasileiros de 15 anos somaram 408 pontos em leitura, abaixo da média de 466 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Entretanto, cabe considerar que, entre 2006 e 2009, o país subiu 15 pontos; depois, ficou praticamente onde estava. Estagnação ou avanço lento? 

Já o Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro (os dados mais recentes são da 6ª edição, divulgada em novembro de 2024), expõe números um pouco mais pessimistas e controversos. Se, por um lado, em 2024, o país perdeu quase 7 milhões de leitores de livros em cinco anos; por outro, o título mais lido no país continua sendo a Bíblia, presença constante no topo da lista, o que relativiza a afirmação generalista do início. É curioso: o brasileiro que "não lê" tem, afinal, o livro mais lido no mundo em sua cabeceira ou na poltrona do circular, na ida e volta do trabalho.

Diante dos dados das pesquisas mencionadas, é preciso fazer uma ressalva. O Pisa mede a compreensão de leitura de jovens de 15 anos, não o gosto de ler. E o Retratos, pesquisa nacional por amostragem, avalia a quantidade de leitores e os objetos de leitura. Resultado: por mais imprescindíveis que sejam esses estudos, toma-se o número final como espelho de uma realidade bem mais ampla e complexa. E quem lê em grupo, por prazer, como nos clubes de leitura e outras rodas, reais ou virtuais, vira nota de rodapé estatística. 

Leituras e afetos

É nesse rodapé, no entanto, que a vida acontece. Essas iniciativas têm se pulverizado e feito a diferença. A professora de português e literatura Beatriz Alves de Assis, por exemplo, criou, com uma colega de área, o clube “Leituras e Afetos” em 2016. Começou com as duas e hoje participam do projeto quase 100 professores e professoras.  Para a idealizadora do grupo, o fato de o seu modelo de experiência não contar com compromissos acadêmicos, mas com conversas e troca de impressões sobre os textos, de forma mais livre, torna a relação com a literatura muito mais fluida e prazerosa. Nesse modelo de clube de leitura, professores leem por escolha, o que, convenhamos, é o aspecto mais sedutor do processo. Professor que não lê dificilmente consegue contagiar seus alunos com a leitura.

Beatriz afirma, apaixonada: “Ler coletivamente é muito melhor que solitariamente”. Além de sua atividade com os colegas no clube, a professora mantém as rodas de leitura com seus alunos na escola pública. Ela defende a priorização da leitura literária, em vez da história da literatura, embora esta tenha o seu espaço. Nesse sentido, pesquisas anteriores do Retratos já apontavam o professor como a principal fonte do interesse por ler. Não deixa de ser uma ironia perceber que a escola, tantas vezes acusada de afastar o leitor, com estudos dirigidos e provas sobre as obras, é também quem mais o desperta. 

Os clubes de leitura têm, de fato, se espalhado pelo país e pela internet. O professor de filosofia Adriano Bechara, da capital paulista, iniciou a experiência com alguns alunos da faculdade em 1998 e hoje lidera várias turmas, formadas por participantes de todas as idades, diferentes áreas do conhecimento e profissões: psicólogos, administradores, agentes do mercado financeiro etc. Segundo ele, a dinâmica é bastante aberta, sem uma metodologia definida. Mais do que comentar sobre as obras, os participantes as leem juntos e presencialmente. “Levamos sete anos para ler A Divina Comédia, de Dante Alighieri, duas horas por sábado”, diz o idealizador da iniciativa. Num mundo em que muito se resolve em segundos, é quase um ato de rebeldia. 

Tempo para leitura

O tempo para a leitura do livro, para Bechara, não importa. O importante é a travessia. Parafraseio aqui Guimarães Rosa, cujo Grande sertão: veredas foi lido por um dos clubes de seus clubes. Deste, participa o engenheiro e empresário Domingos Pires, de 66 anos. Ele revela que as leituras são realizadas oralmente pela equipe, na maioria das vezes, pelo mediador, em encontros uma vez por semana, ao final do dia.  “Chegamos, às vezes, tensos após o trabalho e saímos mais relaxados e descontraídos, mais enriquecidos”, conta o empresário. “A gente sai maior do que entra”, conclui. 

Ao lado dos clubes de leitura, existem os clubes de livros. Embora se confundam às vezes, as duas configurações têm especificidades. Em linhas gerais, clubes de leitura se reúnem para ler e discutir, enquanto os clubes de livros funcionam normalmente por assinatura e curadoria. Nesta onda, temos o clube do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), criado e comandado pelo economista Eduardo Moreira. Ele propõe a seleção de obras relevantes, ficcionais ou não, sob uma edição e publicação próprias e sobre temas importantes para se refletir acerca do Brasil e do mundo. As publicações contam com o prefácio de um especialista, e os assinantes do portal têm acesso aos livros físicos e a uma mediação em live. O site Leiturinha (www.leiturinha.com.br) segue mais ou menos no mesmo caminho, propondo uma boa curadoria de títulos, porém é especializado em literatura infantil. Os pais interessados (ou quem deseja presentear a criança) assinam o portal e recebem uma obra por mês para lerem para e com os filhos. É um excelente estímulo para se criar uma rotina de leitura com os pequenos. Ou seja, são inúmeras as propostas de quem gosta de ler e investe na formação de leitores.

E não podemos nos esquecer dos booktubers, jovens que resenham livros para outros jovens no YouTube. De acordo com artigo da Universidade Estadual do Ceará (UECE) sobre booktubers, os booktubers realizam hoje um trabalho que antes cabia apenas a professores, críticos e bibliotecários: mediar a leitura. E o fazem sem chamada, sem prova e, não raro, com mais seguidores que muita sala de aula. 

Há, inclusive, influenciadores de leitura e cultura, como Pedro Pacífico, com o seu perfil Bookster no Instagram e no YouTube. Para finalizar, o mais improvável desses influenciadores. Diz o chavão que jogador de futebol não lê, não fala e não escreve. Gustavo Scarpa entra em campo para provar o contrário. O jogador — antes do Palmeiras, hoje do Atlético Mineiro — é um leitor contumaz. Dizem as más línguas que ele só para mesmo quando está jogando. Pois ele criou uma página nas redes sociais, na qual sugere títulos e comenta suas leituras. Suas postagens vêm bombando. Entre os livros comentados por Scarpa, está Crime e castigo, do escritor russo Dostoiévski.

Enfim, se até o meio-campo vira a página, quem somos nós para decretarmos o fim da leitura no país?

Pedro Pacífico, do Bookster, foi até uma livraria de Belo Horizonte para conversar com Scarpa sobre as escolhas literárias do jogador. Confira aqui a boa conversa entre os dois: 

https://www.instagram.com/reel/DeXXDDkBehv/?srtk=b2x0b2wzcGUxeTA5

A palavra de hoje é:

MUÇARELA

Certo dia, uma amiga comentou comigo sobre o registro de “muçarela” em um jornal importante. Estava indignada: “Como pode um jornal desse porte escrever ´muçarela` na primeira página!”. Bom, de fato, vemos até na embalagem do queijo, indispensável na mesa dos brasileiros, a palavra com “SS”. Sim: “MUSSARELA”.

Daqui a pouco, por tantas vezes escrita desta forma, vai chegar uma hora que os dicionários vão incorporar o novo registro. Para o grande linguista e autor do maior dicionário em língua portuguesa do Brasil, Antônio Houaiss, o substantivo vem do italiano “mozarela” e se escreve com “Ç”, no português brasileiro. Mas, no fim das contas, o que importa mesmo é saborear o nosso queijinho no café da manhã, seja com “Ç” ou com “SS”, tanto faz!

Marli Siqueira Leite

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Marli Siqueira Leite é professora há 36 anos, tendo atuado no ensino básico e superior nas redes particular e pública. É mestre em Letras pela Ufes, autora do livro Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum da poesia concreta (Edufes, 2011) e curadora de duas exposições sobre o poeta, na Casa das Rosas, em São Paulo (2013) e, no Museu de Arte do ES, em Vitória (2014). A colunista divide o espaço, a cada 15 dias, com seu ex-aluno Davi Setim, hoje estudante de Letras na USP e autor do romance Romanos sem Coliseu (2025). Este espaço do Painel News se dedica às linguagens: à língua e suas interfaces com a educação, literatura, arte, música, dança e o cinema.

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