O Leão, a Feiticeira e o Manjar Turco
Por Davi Setim
Linguagens · · Atualizado em · 4 min de leitura

São muitas as vezes em que é possível de se encontrar paralelos entre literatura e realidade. Semana antes dos resultados das eleições presidenciais de 2026, iniciei uma releitura da série de livros d'As Crônicas de Nárnia, por ordem da data de publicação. Surpreendi-me pelo fato de ficar com o mesmo episódio na cabeça: o trecho do manjar turco.
Fechei o romance de C.S. Lewis, passando de novo por uma transformação similar àquelas da infância, mas diferente no quesito da apreensão de certas metáforas e alusões. Só depois de entrar em contato com uma publicação no Instagram, compartilhada nos stories de uma conhecida, é que pude ir além das apreensões, e fui em busca da aventura de criar novas e insólitas associações.
Aquele então carrossel, ou seja, um post que tem dentro de si uma sequência de imagens, trazia consigo comentários políticos estruturados em uma fórmula bem simples: primeiro, uma frase entre aspas citando uma fala, do senso comum, de alguém em abstrato; subsequentemente, a afirmação "VOCÊS ESTÃO DOENTES!", representando a opinião do perfil a respeito da fala citada.
Dentro da sequência, o enunciado que mais me desconfortou foi o que dizia: “Eu torço por um país melhor, mas só se for com o meu candidato, se não, tomara que afunde de vez” e, em seguida, "VOCÊS ESTÃO DOENTES!". Aliada à imagem que viria a seguir, aquela coletânea de bobagens completava o seu sentido: “Viva a democracia, mas só se o meu candidato ganhar” e, é claro, “VOCÊS ESTÃO DOENTES!”.
Apaguei a tela do celular irritado. Especulei que a irritação poderia vir do discurso patologizante capaz de deixar a careca de Foucault com cabelo em pé, mas não era isso.
Pela razão de haver aberto as redes sociais pela manhã (não façam isso), matutei aquilo durante todo o dia. À noite, enquanto tentava dormir, relembrei da passagem d'O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, livro de estreia da franquia narniana, e tudo pareceu fazer sentido.
A cena em questão, também pode ser vista no filme, narrava o primeiro encontro de Edmundo (um dos três irmãos protagonistas) com a Feiticeira Branca (a vilã). Tentando agradar-lhe, ela oferece qualquer coisa que queira comer, e ele escolhe manjar turco. Depois da escolha, a rainha ilegítima de Nárnia pinga uma gota de porção mágica no chão de neve e “transforma” o gelo no doce.
Após abrir o apetite de Edmundo e demonstrar seu poder, ela entrega o resto das gomas para o cocheiro que, após dar uma beliscada, atira o artifício contra uma árvore. Quando faz isso, a ilusão é desfeita e volta a se mostrar em sua forma original: um pedaço de neve do chão.
Era exatamente isto que todo o referido post representava: um enorme estratagema retórico, tão vazio em seu conteúdo argumentativo.
Para começar a análise do discurso, o primeiro constructo a ser desmontado é o da neutralidade. Já que a postagem, nesse sentido, não menciona nenhum candidato em particular; então, ela seria neutra, correto? Errado! Perceber isso é, no entanto, bastante fácil.
Basta notar que a ausência de nomeação é um mecanismo para criar uma equiparidade entre os concorrentes à presidência. Mas, para infelicidade do autor da postagem, nos finalmentes da apuração do segundo turno, um dos candidatos declarou não reconhecer a vitória do oponente, algo nunca antes feito pelo seu adversário vencedor em outros pleitos.
O “viva a democracia, mas só se eu ganhar” caberia exclusivamente a um dos pleiteados. Mas, ao contrário disso, a postagem optou pela brancura, tão branca quanto a tecla de isenção da urna e tão branca quanto a Feiticeira Branca, o que acabou por evidenciar manchas aqui e ali com o desenrolar do tempo.
Outra ideia absurda é a do incentivo à “torcida” por um país melhor, independente do candidato vencedor. Essa palavra “torcida” aparece em contextos muito bem determinados: a partida de futebol é um deles; mas também, ela pode aparecer em outros contextos: ao desejar o sucesso do amigo, ao querer que o casal termine junto no final do filme, etc…
Ou seja, em situações em que o torcedor não tem controle nenhum sobre os rumos dos fatos ocorridos. Por essa razão que o encorajamento à “torcida”, de qualquer tipo, dentro do jogo político me parece estranhíssimo, uma completa negação ao conceito de cidadania.
Ora, imagino um Aslam torcendo por uma Nárnia próspera sob o governo da Feiticeira Branca, um Aslam que não liderou seu exército contra a tropa inimiga. É uma ideia assustadoramente engraçada, devo admitir.

Davi Setim
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Davi Setim é graduando de Letras pela Universidade de São Paulo. Nascido em Vitória, no Espírito Santo, nutre uma paixão pela literatura e escrita desde sua adolescência, sendo autor do livro Florença (2024) e do romance Romanos Sem Coliseu (2025). O colunista divide espaço, a cada 15 dias, com sua eterna professora Marli Siqueira Leite, mestre em Letras pela Ufes, autora do livro Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum da poesia concreta (Edufes, 2011) e curadora de duas exposições sobre o poeta.
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