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“Mais-chato de Assis”: Por que um clássico agrada a tão poucos?

Aparente chatice de Machado de Assis pode revelar mais sobre os leitores contemporâneos do que sobre a obra do escritor

Por Davi Setim

Linguagens · · Atualizado em · 4 min de leitura

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Machado de Assis e Clarice Lispector · ILUSTRAÇÃO FEITA POR IA

Se você me permitir começar esta coluna com uma anedota, prosseguirei. Assim, já que tenho licença para falar, contarei a respeito de uma aula a qual não assisti. Esqueci o motivo da falta, mas as razões não estão em questão.

O importante é que um colega de turma, que esteve presente, me relatou que o professor, ao entrar no tema da obra de Machado de Assis, disse ter ouvido que a minha geração não gostava mais do Bruxo do Cosme Velho. Segundo ele, chegou a escutar por aí que tínhamos até inventado um apelido: “Mais-chato de Assis”.

Sei que Machado é reconhecido por sua ironia e pelo humor que dela decorre. Não sei, porém, se ele manteria o bom humor caso pudesse saber o como estão renomeando.

Caso me pedissem para escolher um único escritor para ler até o resto da vida, não elegeria Machado de Assis; sou mais do time da Clarice Lispector. Ainda, para me manter dentro do tempo de Machado, talvez escolhesse José de Alencar.

Apesar disso, antes de aceitar que Machado é “Mais-chato” mesmo, passei aquela semana procurando saber de onde veio aquela opinião que mesmo eu estava aderindo. Conversei com minha irmã sobre o caso e cheguei à hipótese de que talvez o próprio professor tivesse inventado o apelido e opinado através da voz da suposta juventude.

Não fomos muito além de novas piadas e suposições. Só depois que voltei a São Paulo pude assistir à aula subsequente àquela. Ali, discutimos um texto que acabou me oferecendo uma chave para destrancar o cofre onde estava a solução: Posição do Narrador no Romance Contemporâneo, de Theodor Adorno.

No ensaio, Adorno discute a crise da forma tradicional do romance diante de uma realidade que se tornou cada vez mais difícil de representar de maneira objetiva, coerente e organizada. Essa antiga confiança na possibilidade de narrar o mundo como se ele pudesse ser apreendido de fora, em sua totalidade, já estava se esvaindo.

Apesar da aparente correspondência entre a forma romanesca e o imaginário moderno, a transição da modernidade para a contemporaneidade trouxe consigo uma avalanche de desconstruções, fazendo com que tudo que fosse sólido se desmanchasse no ar; e aquilo que antes parecia o modo correto e natural de narrar a realidade passou também a revelar seu caráter ilusório e artificial.

É nesse momento que uma espécie de interiorização ganhou força no romance. Ao invés de tentar organizar o mundo exterior para o leitor, as narrativas decidiram explorar a consciência, a memória, a percepção e a fragmentação da vida. Adorno cita Proust, Kafka e Joyce como exemplos dessa transformação. Tomando minhas próprias liberdades, acrescentaria Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector.

Principalmente nesta última, temos uma frequente porta de entrada para novos leitores, inclusive para estrangeiros que chegam à literatura brasileira. É claro que ninguém está livre de achar chatices em qualquer um dos escritores aqui mencionados. Por essa razão, acredito que a origem da implicância com o "Mais-chato" explica-se no texto do Adorno.

Minha tese é que a “chatice” seja, na verdade, o nome que damos à distância entre a maneira de pensar deste autor e as formas de literatura às quais os leitores mais jovens conseguem melhor se relacionar.

Isso significa que Machado esteja preso ao romance tradicional? Muito pelo contrário. É quase um crime reduzir Machado de Assis ao realismo. Em seus romances da maturidade, sobretudo a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas, há uma ruptura bastante evidente com a narrativa tradicional: o narrador interfere na própria história, conversa com o leitor, volta na narrativa, comenta o livro que está escrevendo e transforma a estrutura do romance em objeto de ironia.

Há, portanto, uma “modernidade” em Machado que seria injusto negar.

Ainda assim, existe uma diferença importante. A ruptura machadiana não se dá da mesma maneira que a interiorização radical que encontraremos, décadas depois, em romances como A Paixão Segundo G.H.. Machado desmonta a narrativa por meio da ironia, da interrupção, da metalinguagem e da relação provocativa com o leitor; Clarice, em sua época, desmonta a própria experiência narrável ao mergulhar profundamente na (in)consciência de suas personagens.

Parte da resposta está justamente aí. Se a crise do romance apontada por Adorno nasce da dificuldade de uma representação organizada do exterior dar conta de uma realidade cada vez mais fragmentada, é compreensível que determinadas formas literárias pareçam hoje mais (estranhamente) acessíveis do que outras.

Ainda que com um desafio inicial, o leitor contemporâneo pode se reconhecer com mais facilidade na subjetividade intensa de Clarice, porque já chega a essa literatura familiarizado com um modo de compreensão da realidade próprio do seu espírito do tempo, presente mesmo depois de 48 anos do último livro da autora.

Acredite, caro leitor, Machado não é "Mais-chato". O Bruxo era escritor de folhetim. Seu enfado é só questão de quem não viveu o jornal impresso.

Davi Setim

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Davi Setim é graduando de Letras pela Universidade de São Paulo. Nascido em Vitória, no Espírito Santo, nutre uma paixão pela literatura e escrita desde sua adolescência, sendo autor do livro Florença (2024) e do romance Romanos Sem Coliseu (2025). O colunista divide espaço, a cada 15 dias, com sua eterna professora Marli Siqueira Leite, mestre em Letras pela Ufes, autora do livro Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum da poesia concreta (Edufes, 2011) e curadora de duas exposições sobre o poeta.

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