Ser percebido
Quando você está bem com você mesmo, o reconhecimento chega naturalmente, sem esforço, sem súplica
Por Daniel Grechi
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Quanto mais eu observo o comportamento humano, mais eu me convenço de que existe, por trás de quase tudo o que a gente faz, uma necessidade silenciosa e muito antiga: a de ser percebido.
E ela não é aprendida, não. Ela nasce com a gente. Repare num bebê. Ele chega ao mundo sem saber falar, sem saber andar, sem saber nada, mas já sabe uma coisa: chorar pra ser percebido. Ele chora, ele se mexe, ele busca o colo, e não é porque alguém ensinou. É instinto puro. Lá nos anos 1960, John Bowlby, o pai da teoria do apego, já descrevia isso: o bebê nasce equipado com um sistema pronto pra buscar o outro, um conjunto de comportamentos, o choro, o agarrar, o seguir com os olhos, que têm uma única função, manter perto quem pode cuidar dele. É o corpo sabendo, antes da consciência, que sozinho ele não sobrevive, que ele precisa do olhar do outro pra existir.
E tem a química disso tudo. A ciência deu nome ao que costura esse laço: a ocitocina, o hormônio do vínculo. Ela é liberada no parto, na amamentação, no toque, e age no cérebro da mãe e do bebê iniciando o apego, aquele sentimento de proximidade e de pertencer. Ou seja, essa necessidade de ser percebido está escrita na nossa biologia. Ela vem de fábrica.
E a gente cresce, mas isso não vai embora. Só muda de roupa. Os pares que a gente escolhe, o trabalho que a gente busca, a família que a gente constrói, os grupos de que a gente faz parte, no fundo é tudo a mesma criança de antes, procurando os seus semelhantes, procurando um lugar onde consiga se enxergar e ser visto. A gente passa a vida inteira querendo ser percebido. A diferença é que, adulto, a gente aprende a fazer isso de um jeito mais disfarçado.
E foi aqui que eu cheguei no que, pra mim, é o centro de tudo. Qual é a ferramenta que a gente usa pra ser percebido de verdade? Porque tem um jeito que não funciona, que é continuar chorando pra fora, implorando o olhar do outro, correndo atrás de ser visto. Esse reconhecimento, quando vem, vem vazio. O que funciona é o contrário. É parar de pedir pra fora e começar a cuidar de dentro. É desenvolver a sua autoconfiança, a sua autogestão, a sua maturidade, cuidar do seu corpo, cuidar da sua mente, fazer as pazes com quem você é, com os seus defeitos e os seus limites.
Eu gosto de pensar assim: é como cuidar de um jardim interno. Quando você rega, quando você cuida, quando você deixa aquilo florescer, os passarinhos vêm sozinhos. A vegetação vem. A vida vem habitar aquele lugar, sem você precisar chamar. E com a gente é igual. Quando você está bem com você mesmo, o reconhecimento chega naturalmente, sem esforço, sem súplica. E acontece uma coisa linda nos dois sentidos: você passa a receber do outro o reconhecimento por quem você realmente é, e, ao mesmo tempo, passa a reconhecer o outro como ele é, e não como você gostaria que ele fosse.
Por isso eu digo, com toda a convicção: vale a pena. Vale a pena cuidar da gente. Porque quando você está bem com você mesmo, a sua vida muda de verdade. As coisas passam a acontecer, as portas se abrem, os olhares mudam, as pessoas chegam. O ambiente ao seu redor fica mais leve, mais agradável, pra você e pra quem está perto. E tem uma beleza nisso que fecha o círculo: aquela mesma ocitocina que te ligou ao mundo quando você era bebê, no colo, no toque, no primeiro olhar, ela continua sendo liberada em você, adulto, agora. Cada bom dia verdadeiro, cada olho no olho, cada gesto de cuidado, cada vínculo real, tudo isso rega de novo a sua química por dentro. E é bom ser gentil, é bom ser autêntico, viu? Faz bem, de verdade, no corpo e na alma, mesmo no meio de uma vida atribulada, corrida, cheia de obrigações.
Porque no fim das contas é disso que se trata: ser autêntico, se reconhecer e reconhecer o outro. Ser percebido é uma necessidade básica. Mas o caminho pra isso não é pedir pra ser visto. É se tornar inteiro o bastante pra que o olhar venha, e pra que a gente também saiba olhar.

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