Mãos que a gente não vê
Nosso colunista conta sua relação intensa e constante com seu cão-guia. E agradece ao trabalho especial de quem possibilitou essa relação
Por Daniel Grechi
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Foram 22 anos de busca. Vinte e dois anos querendo, procurando, esperando que um dia chegasse a minha vez de ter um cão-guia. Quem não vive isso talvez não imagine o quanto esse caminho pode ser longo. Hoje, no Brasil, são cerca de 6 milhões de pessoas com deficiência visual e apenas 220 cães-guia em atividade. É uma conta que não fecha, e que mostra o quanto ter um cão-guia ao lado ainda é algo raro por aqui. Exige paciência, persistência e muita esperança. Até que, depois de mais de duas décadas, o Zeus chegou. O meu primeiro cão-guia.
Mas eu nunca soube, de verdade, todo o caminho que ele percorreu até chegar a mim. E foi em outubro, no aniversário de Ana Lúcia, voluntária do Instituto IRIS, que eu descobri uma parte dessa história que mudou a forma como eu olho para a minha própria vida.
Desde 2020, a Ana Lúcia faz parte, muitas vezes em silêncio, da jornada de vários cães-guia do IRIS. E o Zeus é um deles. Eu não conheço a Ana Lúcia pessoalmente. Fiquei sabendo de tudo isso agora.
O Zeus é, simplesmente, o ser mais importante da minha vida hoje. É meu brother, meu companheiro, e está comigo em todos os lugares. Tem um nível de simpatia, de gentileza, de carinho e de amor com as pessoas que é impressionante. É carinhoso, fofo, brincalhão, divertido. É doido da cabeça e, de vez em quando, apronta.
Mas quando está trabalhando, ele se comporta diferente. Assume uma postura de responsabilidade, sem deixar a personalidade de lado. Mesmo guiando, continua sendo ele. Ele aumenta a responsabilidade, mas não muda quem é.
Hoje eu moro sozinho. Somos só eu e ele. E isso tem uma importância enorme. A gente sai junto, volta junto, come junto, dorme junto, trabalha junto. A gente faz tudo junto.
Por isso, quando soube do gesto da Ana Lúcia e da forma como ela trabalhou para que o Zeus pudesse fazer parte da minha vida neste momento único, fiquei sem palavras. A gratidão que isso traz é enorme. Um gesto assim é muito forte, e se multiplica nas pessoas que ele alcança.
Eu acho que ela não tem noção disso. E eu gostaria muito que tivesse. Gostaria que ela soubesse o quanto o gesto dela mudou a minha vida. O quanto eu sou hoje uma pessoa mais independente e mais segura, principalmente porque tenho o Zeus ao meu lado.
Por trás de cada cão-guia que chega a alguém existem histórias de autonomia, liberdade, mobilidade e inclusão. Existem pessoas com deficiência cujas vidas foram transformadas por uma rede de solidariedade que, muitas vezes, trabalha em silêncio, sem esperar aplauso ou reconhecimento.
Quando alguém recebe um benefício, raramente conhece todas as mãos que ajudaram a torná-lo realidade. Talvez esteja aí uma das lições mais bonitas da solidariedade: nem sempre sabemos quem tornou possível a nossa conquista, mas nunca deveríamos perder a capacidade de reconhecer o valor desses heróis e heroínas anônimos.
Ana Lúcia, obrigado. De coração. Por mim, pelo Zeus e por tantas vidas que você ajudou a transformar.
E a você que leu até aqui, fica o convite: olhe além da conquista, para as pessoas, os gestos e a dedicação que a tornaram possível. Porque a inclusão não se constrói apenas com direitos garantidos, mas também com consciência, participação, solidariedade e gratidão.
@danielgrechi

Daniel Grechi
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Daniel Grechi é empresário, palestrante e consultor em inclusão, fundador da Biopleno e da OpenPercept IA.
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