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PELA LEI

Quando o Estado tem déficit de atenção moral

O que o TDAH revela, por analogia, sobre uma política criminal que foge do urgente, se encanta com o simbólico e esquece a vítima

Por Leonardo Augusto Cezar

Promotor · · Atualizado em · 5 min de leitura

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Para quem convive com a desregulação do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), a frase parece familiar: “Eu sei que o prazo era ontem. Mas ontem ainda parecia longe.” Essa frase é cruel, é amarga, mas é exata.

O cérebro com TDAH não processa o tempo da mesma forma que a maioria das pessoas — e compreender essa diferença neurológica nos faz compreender, de maneira inesperada, uma das maiores falências do Estado brasileiro no campo da segurança pública.

A neurociência da atenção já mapeou com relativa precisão o que acontece no sistema de foco do cérebro com TDAH. O circuito dopaminérgico — responsável por sinalizar recompensa, urgência e motivação — não responde de maneira eficaz ao que é apenas importante. Esse circuito se ativa sobretudo diante do que é imediato, novo, inesperado ou emocionalmente intenso. Com isso, surge um resultado paradoxal: quanto maior a pressão de uma tarefa urgente, mais a mente foge para o aleatório. E isso não ocorre por preguiça ou falta de vontade. Ocorre por busca de estímulo.

O cérebro, não encontrando ativação suficiente no que é sério e necessário, vai procurá-la em outro lugar. E esse lugar pode ser qualquer um.

O mecanismo tem um nome científico: hiporresponsividade dopaminérgica ao estímulo rotineiro. Em linguagem simples: o urgente que já é conhecido não dispara o alarme. Só o novo dispara. E, quando o novo chega, a atenção vai para ele, independentemente de ser ou não o que mais importa.

É preciso deixar claro: essa comparação não transforma o TDAH em metáfora pejorativa nem utiliza uma condição neurobiológica como insulto. Ao contrário. Justamente por ser uma realidade séria, conhecida e vivida por milhões de pessoas, o TDAH permite compreender, por analogia, como funciona um sistema que perde a capacidade de hierarquizar o essencial.

Na pessoa com TDAH, o problema não é ausência de inteligência, caráter ou vontade. É a desregulação da atenção, da motivação e da percepção da urgência. Com tratamento, suporte e estrutura, essa dificuldade pode ser compreendida e compensada.

O problema começa quando uma instituição inteira, sem a desregulação neurológica, passa a agir como se também não conseguisse distinguir o urgente do apenas estimulante, o essencial do simbólico, a vítima concreta da narrativa abstrata.

Agora leia esse parágrafo novamente e substitua “o cérebro com TDAH” por “o Estado brasileiro diante do crime”.

A semelhança é desconfortável demais para ser ignorada.

De acordo com o Atlas da Violência do Ipea, o Brasil registrou mais de 40 mil homicídios em 2025. Esse número de mortes, se decorresse de qualquer outra causa, seria motivo para a declaração de emergência nacional. No entanto, mesmo diante desses números, o debate sobre política criminal ainda tem se ocupado de academias de letras para condenados, ressocialização por meio da leitura e políticas de redução de danos no sistema prisional. Essas políticas, quando aplicadas sem estrutura e sem contrapartida de segurança, funcionam como analgésicos para uma hemorragia.

O urgente — a violência cotidiana, o homicídio como causa de morte de jovens, o estupro que não é investigado, o roubo que não é solucionado — não ativa o sistema de foco do Estado. Ativa o sistema de fuga.

É o mesmo mecanismo neurológico. O que deveria gerar resposta imediata gera, ao contrário, desvio de atenção para o que é novo, simbólico e disruptivo. Projetos de ressocialização são importantes, porém tornam-se funcionalmente inúteis quando o sistema penitenciário está superlotado, quando a reincidência criminal é enorme e quando facções criminosas dominam territórios. Isso está longe de ser política criminal. É dopamina de narrativa para sinalizar virtudes.

Há ainda um terceiro desvio que completa o diagnóstico — e talvez seja o mais revelador.

O cérebro com TDAH, quando finalmente é forçado a agir, frequentemente age sobre o que é mais saliente, mais visível, mais fácil de nomear, e não necessariamente sobre o que é mais importante.

Na política criminal brasileira, esse mecanismo se manifesta na inversão sistemática entre agressor e vítima. Enquanto o Estado debate condições de cumprimento da pena, progressão de regime e humanização carcerária — temas legítimos, mas que consomem energia desproporcional —, a vítima do crime permanece invisível ao sistema.

Não há uma política nacional de atenção à vítima e, até hoje, não temos um Estatuto das Vítimas.

A vítima é o compromisso de três dias atrás que não entrou no radar da urgência. Ela existe no discurso, mas ainda não gerou ação real.

O criminoso, paradoxalmente, é o agora. O criminoso é concreto porque está dentro do sistema, ocupa uma cela, gera processo, gera despesa e demanda resposta imediata do aparato estatal. Nas prisões brasileiras, as reclamações dos detentos são visíveis, audíveis, palpitantes. As vítimas, ao contrário, são abstratas. Elas exigem esforço cognitivo para serem imaginadas. É preciso, então, reconstituir mentalmente o que sofreram e o que aquelas pessoas fizeram para estar ali.

A atenção vai para onde o estímulo é mais intenso, não para onde o imperativo moral é mais urgente.

Para a pessoa com TDAH, quando há suporte, tratamento e estrutura, é possível desenvolver mecanismos para compensar o que seu sistema nervoso não faz automaticamente. Ela aprende a tornar o futuro mais concreto. Aprende a criar urgência artificial para tarefas que o cérebro não reconhece como imediatas. Aprende a distinguir o que é novo e estimulante do que é, de fato, necessário.

O Estado brasileiro ainda não chegou lá. O Brasil segue confundindo novidade com progresso, discurso com política, narrativa com resultado. O Brasil segue incapaz de sentir o peso de um homicídio que aconteceu ontem como algo que exige ação hoje. Segue desviando o foco da vítima para o infrator, do crime concreto para o debate abstrato, do urgente para o que apenas parece urgente porque é novo.

E, enquanto isso, em algum lugar do Brasil, alguém aguarda um policiamento que não vem, uma investigação que não avança e uma política que ainda está sendo debatida — num prazo que, para quem precisa dela, já venceu há muito tempo.Leonardo Augusto Cezar

Leonardo Augusto Cezar

Promotor · Pela Lei

Colunista do Painel News

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