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ARTIGO

Por que prendemos tanto e investigamos tão pouco?

Para medir a segurança pública, não basta contar presos. É preciso saber quantos crimes chegam a ser esclarecidos

Por Gustavo Debortoli

Colunista · · Atualizado em · 3 min de leitura

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Imagem ilustrativa · FOTO: MAGNIFIC

O Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo em números absolutos. Fica atrás apenas dos Estados Unidos e da China. Mas será que investigamos os crimes na mesma proporção?

A pergunta pode parecer estranha, porque prisão e investigação deveriam andar juntas – ao menos no imaginário da segurança pública. Na prática, porém, são coisas bem diferentes. Uma prisão pode resultar, por exemplo, de um flagrante, uma operação policial, de um mandado de prisão ou de uma investigação. Já a elucidação de um crime implica em conseguir identificar o autor e produzir elementos suficientes para permitir sua condenação na Justiça.

É justamente, nesse ponto, que os números brasileiros são preocupantes. Especialmente quando tratamos de homicídios. Dados do Instituto Sou da Paz, revelam que apenas 36% dos homicídios ocorridos no Brasil em 2023 foram esclarecidos. Em outras palavras, quase dois terços dos crimes registrados não haviam resultado em identificação de autoria ou denúncia de pelo menos um autor dentro do período analisado.

E o problema não é apenas a baixíssima média nacional de resolução desse tipo de crime. A diferença entre os Estados é enorme – e o Espírito Santo  pode nos oferecer um exemplo interessante.

O Estado vem conseguindo reduzir de maneira expressiva os homicídios ao longo dos últimos anos. Foram 2.034 homicídios registrados em 2009 contra 852 em 2024. Em 2025, o número caiu novamente, para 796 — o menor resultado da série histórica iniciada em 1996.

Coincidentemente ou não, o Espírito Santo apresentou taxas de esclarecimento significativamente superiores à média brasileira. Segundo o levantamento do Sou da Paz, 52% dos homicídios ocorridos no Estado em 2022 foram esclarecidos. Para os crimes de 2023, o índice chegou a 58%, enquanto a média nacional ficou em 36%.

Mas ao contrário do que se pode imaginar num primeiro momento, não é possível afirmar categoricamente que a redução dos homicídios no Espírito Santo foi causada pela maior capacidade de investigação. Há inúmeros outros fatores envolvidos. Ainda assim, a coincidência entre queda da violência letal e maior capacidade de esclarecimento merece, no mínimo, ser analisada com mais atenção. Afinal de contas, investigar não é simplesmente prender.

As diversas etapas de uma investigação de homicídio envolvem preservar o local do crime, coletar vestígios, realizar perícias, ouvir testemunhas, cruzar informações, identificar suspeitos e construir um conjunto probatório capaz de resistir ao processo judicial. É um trabalho invisível aos olhos da população, mas fundamental para obter resultados no campo da segurança pública.

De fato, a certeza de que um crime será descoberto pode ser mais relevante para a prevenção do que o tamanho da pena prevista para quem o pratica.

Assim, se um homicídio tem poucas chances de ser esclarecido, o criminoso tende a perceber que o risco de ser responsabilizado é baixo. Já, quando a investigação é eficiente, essa percepção muda. Talvez por isso devêssemos medir a segurança pública a partir de indicadores diferentes dos tradicionais.

Quantas pessoas foram presas é importante, mas também precisamos saber: quantos crimes foram esclarecidos? Quanto tempo levou para esclarecê-los? Quantos autores foram identificados? Quantos casos chegaram à Justiça?

O exemplo do Espírito Santo mostra que é possível reduzir homicídios e, ao mesmo tempo, apresentar uma capacidade de esclarecimento acima da média nacional. O próximo passo é descobrir o que mais existe por trás desses números.

Porque uma polícia eficiente não é apenas aquela que previne ou chega rápido ao local do crime, mas também aquela que consegue descobrir quem o cometeu.

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