Será que os crimes acontecem sempre nos mesmos lugares? A ciência mostra que sim
Um dos achados mais consistentes da criminologia moderna é que o crime se concentra em poucos lugares e horários específicos
Colunista · · Atualizado em · 4 min de leitura
Quando pensamos em criminalidade, há uma tendência quase que natural de se imaginar que ela esteja distribuída de forma uniforme nas cidades. Afinal, se um município tem altos índices de violência, seria razoável supor que deve-se ter um cuidado especial ao andar em qualquer local ou horário. No entanto, décadas de pesquisas mostram exatamente o contrário.
Um dos achados mais consistentes da criminologia moderna é que o crime se concentra em poucos lugares e horários específicos. Em outras palavras, uma pequena parcela das ruas, avenidas ou quarteirões costuma responder por uma grande parte das ocorrências policiais.
Imagine uma cidade com mil e quinhentas ruas, como a nossa capital, Vitória. Décadas de pesquisas realizadas em diferentes países demonstram que, frequentemente, menos de 5% dos logradouros concentram uma parcela desproporcional dos crimes. Em alguns casos, apenas 1% dos endereços responde por uma fração expressiva das ocorrências de violência e delitos patrimoniais.
Esses locais não necessariamente são os bairros mais pobres ou mais populosos da cidade. Muitas vezes, são áreas que reúnem determinadas características que favorecem a prática de crimes: grande circulação de pessoas, baixa vigilância, iluminação deficiente, concentração de bares, pontos de transporte coletivo, caixas eletrônicos, estacionamentos ou estabelecimentos que atraem grande fluxo de público.
Essa constatação muda profundamente a forma como os formuladores de políticas públicas deveriam enxergar a segurança pública.
Hoje, a forma mais comum de formulação das políticas de segurança, é saturar a cidades com patrulhamento, a partir de uma lógica simples: quanto mais policiais circulando, menor deverá ser a criminalidade. A ciência, entretanto, mostra que esse tipo de estratégia, quando aplicada isoladamente, produz pouco ou nenhum resultado.
Por outro lado, quando o policiamento é direcionado para os locais e horários que concentram os maiores índices de criminalidade, os resultados costumam ser significativamente melhores. Em vez de espalhar recursos de forma homogênea, a polícia passa a concentrar sua atenção e recursos limitados nos pontos com maior risco, utilizando análise de dados para identificar padrões e horários críticos.
Essa conclusão não se baseia apenas em teoria. Desde o fim da década de 1980, diversos experimentos compararam áreas que receberam policiamento intensificado com outras semelhantes que mantiveram o patrulhamento habitual. Em Minneapolis (EUA), um dos estudos pioneiros mostrou que os chamados hot spots que receberam maior atenção policial registraram redução nas ocorrências criminais. Nas décadas seguintes, pesquisas em cidades como Jersey City, Sacramento e outras localidades americanas chegaram a resultados semelhantes. Posteriormente, revisões sistemáticas reunindo dezenas de experimentos em diversos países confirmaram que o policiamento focado em áreas de maior incidência criminal reduz delitos de forma consistente, especialmente quando combinado com análise de problemas e ações preventivas.
É importante destacar que isso não significa manter viaturas paradas indefinidamente em um único local. Esse modelo de policiamento deve combinar presença policial, análise criminal, fiscalização orientada e ações preventivas adaptadas às características de cada área.
Outra dúvida frequente é: Se a polícia intensifica o patrulhamento em um ponto, o crime simplesmente não migra para a rua ao lado?
Bem, essa hipótese também foi amplamente estudada; e embora algum deslocamento possa ocorrer em situações específicas, a maior parte das pesquisas indica que ele é bem menor do que se imaginava. Em muitos casos, observa-se inclusive um "efeito dissuasivo", no qual a redução da criminalidade alcança ruas ou bairros vizinhos.
Isso acontece porque a percepção de maior risco para o infrator não fica restrita ao ponto exato onde ocorre a intervenção.
Essas descobertas reforçam uma ideia importante: uma política pública de segurança minimamente eficiente não depende apenas do número de policiais, mas também da qualidade da informação utilizada para orientar o emprego dos recursos.
Mapear ocorrências, identificar padrões, compreender horários de maior incidência e conhecer as características dos locais mais vulneráveis pode permitir que o policiamento seja mais eficiente sem, necessariamente, ter de aumentar o efetivo. Como um médico não engessa todo o corpo quando apenas uma perna está quebrada, na segurança pública, evidências mostram que direcionar recursos policiais para os locais onde o crime realmente se concentra tende a produzir melhores resultados do que ampliar os recursos de forma indistinta.
Naturalmente, essa estratégia não resolve todos os problemas de violência. Fatores como educação, oportunidades econômicas, urbanismo, sistema de justiça e prevenção social continuam sendo fundamentais. Porém, quando se trata diretamente da atuação policial, poucas conclusões são tão consistentes quanto esta: o crime não está igualmente distribuído no território, e a resposta do Estado também não pode estar. Política públicas de segurança devem portanto pautar-se por um princípio simples: entender onde está o problema antes de decidir de que maneira enfrentá-lo.

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