Pazolini tenta consolidar vantagem e Ferraço busca virada no segundo turno no ES
Tarefas dos dois candidatos são praticamente opostas: um precisa confirmar favoritismo, outro tem de atrair os votos dados para seu adversário
Por Rodrigo Péret
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 5 min de leitura
O segundo turno da eleição para o Governo do Espírito Santo, cujo dia de votação será dia 25 de outubro, começa com uma vantagem importante para Lorenzo Pazolini (Republicanos), mas também coloca desafios distintos para os dois candidatos. Depois de terminar a primeira etapa à frente, o prefeito de Vitória terá como principal missão preservar a importante vantagem construída nas urnas (ele ficou a 0,36% da vitória no primeiro turno), enquanto Ricardo Ferraço (MDB) precisará ampliar significativamente seu eleitorado para buscar uma virada.
Pazolini recebeu 1.048.633 votos no primeiro turno, o equivalente a 49,65% dos votos válidos. Ferraço teve 719.397 votos, ou 34,06%. A diferença entre os dois foi de 329.236 votos.
Facilidade para mobilizar militância
Para o professor e consultor em marketing político Darlan Campos, a vantagem obtida por Pazolini produz um efeito político que vai além da diferença numérica. Segundo ele, o candidato que larga na frente chega ao segundo turno com maior capacidade de mobilizar sua militância e atrair novos apoios.
“Essa quase vitória e a distância para o segundo colocado trazem para a campanha que larga na frente no segundo turno uma força moral, de ânimo de tropa, de arregimentação de novos apoiadores que não estavam com eles nesse primeiro turno”, avalia.
A tarefa de tirar voto do adversário
Ao mesmo tempo, o resultado cria para Ferraço a necessidade de manter sua própria base mobilizada e convencer o eleitor de que a disputa continua aberta. Para Darlan, o desafio é especialmente difícil porque o emedebista terá de retirar votos do adversário e, simultaneamente, incorporar uma parcela expressiva dos votos que foram destinados a outros candidatos.
“É muito difícil tirar votos de um adversário e, ao mesmo tempo, incorporar a maior parte dos votos que não foram destinados a ele”, afirma.
O consultor destaca ainda que viradas no segundo turno são mais comuns quando a diferença entre os dois primeiros colocados é menor. “Quando isso acontece, em geral, são quando os resultados são muito mais próximos, a diferença é menor entre o primeiro e o segundo colocado”, diz.
Resultado reflete força maior do campo da direita
Para o especialista em marketing político Rafael Leão, o desempenho de Pazolini também precisa ser observado dentro de um cenário eleitoral mais amplo no Espírito Santo. Ele aponta que a eleição produziu sinais simultâneos de fortalecimento de candidaturas identificadas com a direita em diferentes disputas, embora isso não signifique transferência automática de votos entre elas.
“Quando Pazolini chega a 49,65%, Evair conquista uma vaga no Senado com quase 1 milhão de votos, Maguinha recebe mais de 761 mil votos ao Senado, Lucas Polese ultrapassa 419 mil e o PL elege seis deputados estaduais, não estamos diante de um resultado isolado de uma candidatura”, afirma Leão.
Para o analista, os números ajudam a dimensionar o ambiente político em que o segundo turno será disputado. Ele ressalta, porém, que os resultados das diferentes eleições não podem ser tratados como uma única base eleitoral disponível para Pazolini.
O candidato do Republicanos terá como desafio preservar os votos já conquistados e, ao mesmo tempo, ampliar o diálogo para além de sua base. Também precisará evitar que a proximidade dos 50% produza a sensação de que a eleição está decidida e reduza a mobilização de seus eleitores.
“Pazolini precisa preservar uma maioria que praticamente já construiu. Ricardo precisa construir uma maioria que ainda não existe. Essa é a assimetria fundamental deste segundo turno”, resume o especialista.
Ferraço precisa ampliar alianças e reduzir distância
Para Ferraço, o primeiro desafio é matemático: reduzir uma diferença de 329 mil votos. O segundo é político: construir uma coalizão capaz de atrair eleitores de outros candidatos sem afastar sua própria base.
A possibilidade de incorporar os votos recebidos por Helder Salomão (PT), que terminou o primeiro turno em terceiro lugar, é uma das questões centrais. A dificuldade está em fazer essa aproximação sem transmitir incoerência ao eleitorado de centro-direita que já votou em Ferraço.
Na avaliação de interlocutores políticos ouvidos pelo PAINEL NEWS sob condição de anonimato, o resultado de Ferraço também expôs limites na capacidade de transferência de votos de lideranças locais, especialmente na Grande Vitória. Pazolini teve desempenho expressivo na região, enquanto Ferraço ficou abaixo de expectativas em parte do interior.
Os votos de Cariacica
Cariacica é apontada como um exemplo dessa dificuldade. Mesmo sendo administrado por Euclério Sampaio, aliado de Ferraço, o município não produziu uma transferência de votos suficiente para garantir ao candidato governista uma vantagem compatível com a força política esperada de seu grupo. O resultado reforça que a influência de prefeitos e lideranças locais não se converte automaticamente em votos para candidatos majoritários.
A avaliação de interlocutores também é de que o desempenho abaixo das expectativas não ficou restrito a Ferraço. Embora Renato Casagrande (PSB) tenha conquistado uma das duas vagas ao Senado, sua votação ficou abaixo do que setores da política capixaba projetavam. Na disputa pela Câmara, nomes ligados à base governista, como Tyago Hoffmann (PSB), Freitas (PSB) e Serginho Vidigal (Podemos), terminaram como suplentes.
Nesse cenário, Ferraço terá de buscar uma frente mais ampla para tentar diminuir a vantagem de Pazolini. A estratégia passa por ampliar sua presença no interior, recuperar espaço na Grande Vitória e conquistar eleitores que optaram por outros candidatos no primeiro turno.
A busca por quem não votou
Outro grupo relevante está entre os 638.972 eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno, o equivalente a 21,39% do eleitorado. O contingente é quase duas vezes maior que a diferença de votos entre Pazolini e Ferraço e representa uma frente potencial de mobilização para os dois candidatos. A ausência, porém, não significa que todos esses eleitores estejam disponíveis para uma candidatura: transformá-los em votos exige uma estratégia específica de convencimento e mobilização.
Para Rafael Leão, Ferraço também precisa mudar a percepção do eleitor sobre a própria disputa. “Segundo turno não é continuação de campanha; é reposicionamento”, afirma. Na avaliação dele, Pazolini tentará transformar a votação do primeiro turno em confirmação e ampliação, enquanto Ferraço precisa criar novas razões para que o eleitor reavalie sua escolha.
O cenário, portanto, coloca os candidatos diante de tarefas diferentes: Pazolini precisa conservar uma vantagem próxima de uma maioria absoluta e impedir a desmobilização de seu eleitorado; já Ferraço precisa construir uma nova composição de forças, atrair eleitores de outras candidaturas para virar uma diferença de mais de 329 mil votos.

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