Odisseia
O que separa os heróis da Grécia Antiga dos super-heróis modernos? Uma análise sobre moralidade, poder e os ideais que moldam o heroísmo
Por Davi Setim
· Atualizado em · 3 min de leitura
Parece que perdemos, já há bastante tempo, a capacidade de pensar em modos de existência diferentes dos nossos, perdemos a capacidade de pensar em modos de heroísmo distintos dos atuais. E, contudo, queremos continuar sendo os heróis. Quem não quer?
Esse anseio parece ter levado os cinemas do mundo todo a exibirem quase simultaneamente dois filmes: Homem-Aranha: um novo dia, de Destin Daniel, e A Odisseia, de Christopher Nolan. Coincidência ou não, os dois protagonistas tentam apresentar diferentes propostas da mesma ideia, "o herói" e sua trajetória.
Homero registrou um personagem construído por anos de tradição oral como “polýtropos”. Essa palavra foi motivo de muita dor de cabeça para os tradutores da epopeia do Odisseu — ou Ulisses, para os romanos. Algumas das tentativas para os sentidos da palavra foram: astucioso, multifacetado, multiforme, versátil, versado, de mil ardis...
Seja lá qual for a conclusão dos tradutores, verdade é que tais epítetos do rei de Ítaca são tão somente um prenúncio do que significa ser um herói helênico. Para que Odisseu conseguisse reconquistar seu reino, precisou profanar, saquear, enganar e se deixar seduzir.
Ou seja, pouco do que um protótipo de herói vislumbra fazer.
Ainda assim, desde a Grécia Antiga, continuamos contando e recontando as grandes aventuras desse homem de mil faces. E, mesmo depois da descoberta do Novo Mundo, ele segue sendo um herói. Alcança seu grande objetivo, chega à Ítaca e volta para os braços de sua amada Penélope e de seu filho Telêmaco.
Entretanto, para entender o porquê disso, é preciso se atentar a outro fenômeno das páginas e do cinema: o Homem-Aranha. Criado em 1962, o herói adolescente foi um sucesso de vendas desde a sua estreia.
O êxito comercial foi tanto que, em 1999, a Sony comprou os direitos cinematográficos do personagem por 7 milhões de dólares, o que, corrigindo para a cotação de hoje, daria o dobro da quantia nominal.
Ao ser ofertada quase toda produção intelectual da Marvel por 25 milhões de dólares, os executivos da Sony responderam: "Ninguém dá a mínima para os outros personagens da Marvel. Volte lá e faça um acordo apenas para o Homem-Aranha". Agora, por que esse personagem?
Tudo aquilo que fez do Homem-Aranha um acontecimento diverge, justamente, de tudo o que Odisseu representa. Enquanto o primeiro é do povo, fiel e altruísta, o segundo é aristocrata, nem sempre fiel e coloca a si e aos seus em primeiro lugar.
Mas não foi o Odisseu de Homero que levou o público para as salas de cinema. E, se o herói da Marvel serve para satisfazer o público mais ingênuo, o herói “grego” de Nolan serve para satisfazer o público que acredita ser menos ingênuo, mas que ainda não consegue se ver livre do arquétipo do “grande homem”.
Apesar de britânico, se houve algo que Nolan soube fazer bem, foi criar um herói americano. A menos que você se proponha a aprender a língua grega clássica, quaisquer experiências para com o livro Odisseia serão alienadas. Isso, todavia, não deve ser motivo para arrepiar os seus cabelos.
Embora parte da crítica tenha se incomodado com a escolha dos figurinos e cenários, o anacronismo hollywoodiano é bem similar àquele presente nos vasos gregos que recontam a Guerra de Tróia: as armaduras, as armas, a arquitetura; nenhum desses objetos corresponde aos da época retratada no poema.
A maior alienação em relação à obra original tem sido reconhecida de maneira gradual. Essa alienação, isto é, o distanciamento do que se vê e do que se lê está presente na essência da adaptação de Odisseu para este filme.
Uma vez que Nolan decidiu voltar ao mito helênico para criar uma alegoria da culpa americana pelas guerras e tragédias ao redor do planeta, ele se viu sem alternativas. Se somos americanos, não podemos ser os heróis. Se somos americanos, tampouco podemos ser os vilões. Se não podemos ser os heróis nem os vilões, que nos sintamos culpados.
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