Não é sobre isso
O uso excessivo de expressões da moda no dia a dia, nas redes sociais e no mundo corporativo esvazia o sentido das palavras
Colunista do Painel News · · Atualizado em · 6 min de leitura
"O café da nossa padaria não é só um café. É uma experiência!”. “O apartamento Y é amplo e diferenciado”. “É preciso ter propósito!”. Você já chegou a notar, em locais simples, como no espetinho da esquina, em posts das redes sociais, anúncios ou, ainda, em palestras de motivação, reuniões empresariais, o uso reincidente e, às vezes, equivocado, de determinadas palavras que acabam se tornando clichês e comprometem o conteúdo? O problema não está originalmente no termo em si, mas no seu uso excessivo, esvaziado e, às vezes, incorreto para o contexto. Toda palavra é, a princípio, legítima. A questão está em percebermos a sua utilização demasiada e o enfraquecimento ou a perda de seu sentido, a fim de evitá-la.
Houve, por exemplo, o tempo do “a nível de”, bastante utilizado no lugar de “ao nível de” (para indicar mesma altura) e “em nível de” (para se referir a hierarquia ou âmbito). No entanto, parecia “culto” dizer “a nível de”, muito comum nos discursos políticos e até no meio acadêmico. A expressão era tão repetida que se tornou mote de uma canção de 1982, “A nível de”, de Aldir Blanc e João Bosco. Claramente uma ironia divertida dos compositores sobre a relação de dois casais cariocas. Lá no meio da letra, Aldir conclui: “Que a nível de proposta, cada um come o que gosta”.
Mais ou menos no mesmo período, usou-se também a conjunção “enquanto” com outros significados, além dos indicados pelos dicionários, como “simultaneidade temporal” (“ao mesmo tempo que”) e “contraste/comparação/oposição de situações” (“ao passo que”). Contudo, a palavra era empregada de forma descabida, substituindo o conectivo “como”. E com ares de sofisticação! Dizia-se “Nós, enquanto mulheres…”, “Eu, enquanto ser humano”, quando o correto seria “Nós, como mulheres…”, “Eu, como ser humano…”. A condição de “ser humano” não é momentânea, até que morramos e nos transformemos em outro ser… Vá saber! Mas a moda pegou. Um dia cheguei a escutar “A Terra, enquanto planeta…”! Quando a Terra deixar de ser um planeta no infinito cosmos, juro, espero não estar mais aqui para documentar.
E por que essas expressões caem no gosto de certos grupos e meios sociais? Muito provavelmente, por limitação de repertório linguístico, ou seja, falta de substitutos mais precisos e adequados; por insegurança no ato da comunicação; por simples modismo e/ou pelo desejo de uma retórica “elaborada”. Afinal, é muito mais chique dizer “O essencial é a contribuição de todos” do que “O importante é a contribuição de todos”, mesmo sabendo do sentido filosófico, complexo e diverso do vocábulo “essência” e seus derivados. A palavra “experiência” é também preciosa. Mas quando o simples ovo do café da manhã passa a ser vendido como “experiência”, o termo perde a sua rica origem e simbologia. Esvazia-se. O verbo “reinventar”, infelizmente, se empobreceu. Uma pena! Viralizou na pandemia (desculpe o trocadilho), quando diziam "O restaurante de bairro precisou se reinventar migrando 100% para o delivery”. De tempos em tempos, enfim, em função das influências de certos discursos e de seus interesses, inclusive mercadológicos, ou em função das novas tecnologias, alguns vocábulos caem no gosto popular, “viralizam”. Outros desaparecem.
Menciono ainda um caso de vício de linguagem atual, bastante revelador e incômodo. Trata-se de uma estrutura de frase. Quem já não leu ou ouviu construções iniciadas pela expressão “Não é sobre…”, seguida por “Mas é sobre…”, como em “Não é sobre chegar ao topo mais rápido, mas é sobre apreciar cada passo da subida”? Este exemplo foi solicitado por mim ao Gemini, IA do Google, que me forneceu uma lista interminável de casos (na maioria de autoajuda!), justamente porque essa oposição (negação seguida de afirmação) é uma das marcas de identificação de textos da IA. O uso da preposição “sobre”, nessas situações, torna o vício realçado, e o conteúdo, às vezes, confuso.
Essa construção aparece com destaque na canção “Trem Bala”, de Ana Vilela, que se tornou um “chiclete”, porque “gruda” na memória dos ouvintes. Alguns chegam, inclusive, a finalizar a frase com simplesmente: “É sobre (ponto-final)”. Ora, as preposições são articuladores, conectam palavras, sentidos. No caso da oralidade, ainda que se espere a complementação por parte do leitor, que deve recuperar a ideia anterior, a comunicação não fica suficientemente clara, não se completa. Cria-se, pois, um vácuo de comunicação.
Em tempos de alta tecnologia e IA, os vícios linguísticos, os modismos e a repetição dessas palavras multiplicam-se velozmente e aparecem em apresentações corporativas, palestras (em tempos de sucesso absurdo dos coaches, todos são palestrantes em potencial), nos posts, na fala cotidiana e nas redações dos estudantes. Como professora, também de redação, venho travando uma luta insana contra o senso comum e os modismos de plantão.
Um texto verdadeiro, oral ou escrito, carrega as nossas marcas, expõe nossos domínios, nossa bagagem de conhecimentos vivenciais, científicos e linguísticos. Porém, escancara, do mesmo modo, nossos desconhecimentos e nossas faltas. Para bons leitores e ouvintes, a escrita ou fala são o espelho de seu autor. Precisamos cuidar, portanto, do reflexo dessa nossa imagem, com atenção e autocrítica contínuas.
Finalizo esta coluna inaugural dizendo que posso até ter caído ou cair eventualmente na armadilha evidenciada por mim aqui: a de replicar um clichê, um vício de linguagem nos discursos. Porém, o importante é estarmos sempre atentos, exercer o senso crítico e avaliar nossa comunicação, buscando evitar tais expressões.
É sobre isso.
No universo das palavras: entre erros e acertos
(Neste espaço vamos abordar a escrita de algumas palavras, seus sentidos e usos no cotidiano)
A palavra de hoje é: “assertiva/assertivo”
O adjetivo “assertivo” ganhou enorme espaço no mundo corporativo. É muito comum executivos e executivas falarem que as decisões precisam "ser assertivas", como se estivessem usando uma maneira mais sofisticada, rebuscada de falar que a decisão precisa ser “certeira/correta”. Mas há um desvio grave aqui, bastante comum atualmente. Segundo o dicionário Houaiss, a palavra “assertiva”, como substantivo, significa “afirmação categórica”. Como adjetivo, é sinônimo de “afirmativa(o)”. Veja este exemplo com o uso apropriado: “A mãe foi assertiva (portanto, afirmativa) diante do pedido do filho”. É preciso prestar atenção!
Apresentação
Marli Siqueira Leite é professora há 36 anos, tendo atuado no ensino básico e superior nas redes particular e pública. É mestre em Letras pela Ufes, autora do livro "Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum da poesia concreta" (Edufes, 2011) e curadora de duas exposições sobre o poeta, na Casa das Rosas, em São Paulo (2013) e, no Museu de Arte do ES, em Vitória (2014). A colunista divide o espaço, a cada 15 dias, com seu ex-aluno Davi Setim, hoje estudante de Letras na USP e autor do romance Romanos sem Coliseu (2025). Este espaço do Painel News se dedica às linguagens: à língua e suas interfaces com a educação, literatura, arte, música, dança e o cinema.

Marli Siqueira Leite
Colunista do Painel News · Linguagens
Marli Siqueira Leite é professora há 36 anos, tendo atuado no ensino básico e superior nas redes particular e pública. É mestre em Letras pela Ufes, autora do livro Ronaldo Azeredo: o mínimo múltiplo (in)comum da poesia concreta (Edufes, 2011) e curadora de duas exposições sobre o poeta, na Casa das Rosas, em São Paulo (2013) e, no Museu de Arte do ES, em Vitória (2014). A colunista divide o espaço, a cada 15 dias, com seu ex-aluno Davi Setim, hoje estudante de Letras na USP e autor do romance Romanos sem Coliseu (2025). Este espaço do Painel News se dedica às linguagens: à língua e suas interfaces com a educação, literatura, arte, música, dança e o cinema.
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