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Economia

As razões para a falta de mão de obra no Espírito Santo

Problema relatado por empresas no Estado tem diferentes causas, que vão desde questões financeiras até a busca por qualidade de vida

Por Rodrigo Péret

Repórter Multimídia · · Atualizado em · 12 min de leitura

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Trabalhadores durante obra em Vitória · REPRODUÇÃO/PREFEITURA DE VITÓRIA

“O bar está pronto, montado. Não abro porque não consigo achar funcionário”. “Estou com vagas há meses no supermercado. Não consigo preencher de maneira alguma”. “A pessoa chega aqui, no restaurante, e quando descobre que vai trabalhar no final de semana, desiste. A pessoa acha mesmo que restaurante não funciona no fim de semana?”

As frases acima foram ditas nas últimas semanas por comerciantes de Vitória à reportagem do PAINEL NEWS,  e o problema também é relatado por empresários de todos os setores, tanto no Espírito Santo quanto no Brasil: a falta de mão de obra virou um obstáculo para os negócios, levando empresas a reduzir atendimentos e serviços e até adiar investimentos.

Para o presidente da Associação dos Empresários de Vitória (Assevix), Bruno Chieppe, o problema está entre os principais desafios do setor produtivo, mas não tem uma causa única.

“Quando faltam profissionais para vagas disponíveis, o impacto vai além da contratação: limita a capacidade de produzir, crescer e investir. Por isso, qualificação e produtividade precisam fazer parte de uma política de longo prazo para sustentar o desenvolvimento econômico do Espírito Santo”, afirma Chieppe.

A dificuldade, portanto, não está necessariamente na ausência de pessoas procurando trabalho. Em muitos casos, a questão passa pelas condições oferecidas, pelo tipo de jornada, pela concorrência com outras formas de ocupação, pela qualificação exigida e até pela forma como determinadas profissões são percebidas.

A seguir, confira seis fatores que ajudam a explicar por que empresas e trabalhadores nem sempre conseguem se encontrar:

Quando o bem-estar pesa mais que a remuneração

Jovem vendedora em loja em Cachoeiro: escala 6x1 é rejeitada por trabalhadores, que buscam qualidade de vida
Jovem vendedora em loja em Cachoeiro: escala 6x1 é rejeitada por trabalhadores, que buscam qualidade de vida · MÁRCIA LEAL / PREFEITURA DE CACHOEIRO DE ITAPEMIRIM

A falta de atratividade de uma vaga não necessariamente está no aspecto salarial. O tempo que o trabalho ocupa na vida também pesa na decisão. Horários noturnos, trabalho aos sábados, domingos e feriados e escalas "6x1" podem encontrar maior resistência, especialmente entre trabalhadores mais jovens. 

“Não basta dizer que existe uma escassez de mão de obra ou que não se consegue contratar. As pessoas estão aí, mas essa geração é diferente da anterior”, afirma a psicóloga e consultora trabalhista Ariane Mendonça. Segundo ela, se antes o emprego era visto principalmente como sinônimo de estabilidade e segurança, hoje fatores como condições de trabalho e saúde mental ganharam peso na decisão dos profissionais.

Para Liliane Menezes, diretora de RH da Vilfer Reciclagem, não se trata de uma rejeição ao trabalho, mas de uma mudança nas expectativas. Segundo ela, flexibilidade, qualidade de vida e identificação com os valores da empresa ganharam peso na escolha profissional. 

É nesse contexto que ganhou força o debate sobre o fim ou a redução da escala 6x1. Para os defensores da mudança, mais tempo de descanso pode melhorar a qualidade de vida e tornar determinadas ocupações mais atrativas. Para setores que funcionam todos os dias, porém, a reorganização pode elevar custos e exigir mais trabalhadores.

“As novas gerações valorizam mais a qualidade de vida, a flexibilidade e o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Quando uma vaga reúne jornadas extensas com escalas pouco atrativas, há dificuldade não só em contratar, mas em reter o trabalhador, algo muito relatado em setores de serviços como bares, restaurantes e hotéis”, afirma o advogado especialista em direito trabalhista Leonardo Ribeiro.

Presidente do Sindicato dos Restaurantes, Bares e Similares do Estado (Sindbares), Rodrigo Vervloet, afirma que a transformação do perfil dos trabalhadores exige atualização das relações de trabalho. "Nosso setor tem uma dinâmica própria, o que torna a discussão mais específica do que outros setores. É preciso discutir também medidas que reduzam o custo da formalização", salienta. 

A discussão também chegou ao setor supermercadista capixaba, que em 2025 debateu a contratação por hora, rejeitada pelo Sindicato dos Empregados no Comércio do Estado (Sindicomerciários-ES) sob o argumento de que o modelo não garantiria carga horária nem renda mensal fixas.

A vaga formal disputa espaço com a autonomia

Trabalho por aplicativo se tornou concorrência para modelo CLT
Trabalho por aplicativo se tornou concorrência para o modelo CLT · FREEPIK

A expansão das plataformas digitais criou uma nova concorrência para o emprego tradicional. Motoristas de aplicativo, entregadores, prestadores de serviços e outros trabalhadores por conta própria passaram a poder escolher uma rotina mais autônoma, ainda que com menor proteção social e maior instabilidade.

Em algumas atividades, a comparação é direta: o trabalhador avalia quanto receberia com carteira assinada, horário fixo e supervisão e quanto poderia faturar trabalhando por conta própria. A possibilidade de escolher os horários e aumentar o rendimento em determinados períodos pode pesar nessa decisão.

Para a psicóloga e consultora trabalhista Ariane Mendonça, essa transformação deixou a força de trabalho mais pulverizada. “Antes a gente pensava que a estabilidade era um emprego com carteira assinada. Hoje, muitas vezes, nesses trabalhos informais, eles ganham mais do que no trabalho CLT, e existe uma liberdade maior, até questão de tempo”, afirma.

"As empresas não competem mais só entre si por profissionais, mas também com outros modelos de trabalho", explica o economista-chefe do Ibef-ES, Felipe Storch, que acrescenta ser necessário revisar não só as estratégias de atratividade de trabalhadores como também as de retenção. 

O fenômeno é relatado por especialistas em setores como comércio atacadista, construção civil e indústria. Para Rodrigo Maxwel, empresário, fundador e CEO da Mitis Tecnologia, a questão também passa pela percepção dos ganhos imediatos e dos benefícios de longo prazo oferecidos pelo emprego formal. 

 "Os trabalhadores estão valorizando mais o retorno imediato, mas esquecem os benefícios que a CLT traz a eles no médio e longo prazo. Talvez uma saída seja deixar esses pontos mais claros e discutir outras possibilidades para tornar o emprego formal mais atrativo", afirma. 

Para Ariane, a mudança exige que as empresas também repensem suas estratégias de contratação. “Se o cenário mudou, o que nós precisamos fazer enquanto gestão para se adaptar?”, questiona. Segundo ela, não basta conseguir atrair o profissional: é necessário criar condições para mantê-lo. “Eu preciso ter algo que desperte nas pessoas o interesse. Mas é aí que o trabalho começa, porque eu preciso reter.”

Perda de prestígio em algumas profissões

Pedreiros durante obra: profissão lida com estigmatização na sociedade, um dos fatores que têm dificultado a renovação dos quadros · PEXELS

Outro componente da escassez está na forma como determinadas ocupações são percebidas pela sociedade. Pedreiros, vendedores, caixas, auxiliares de serviços, garçons, mecânicos, operadores e outros profissionais exercem funções essenciais para a economia, mas acabam por carregar menor prestígio social.

Um estudo publicado em 2024 pelos pesquisadores Leonardo Rangel dos Reis e Matheus Barbosa de Sá Cerqueira, ligados ao Instituto Federal da Bahia (IFBA), aponta que atividades braçais carregam historicamente menor prestígio social, associado à valorização do trabalho intelectual e de determinadas profissões.

Esse estigma, porém, não explica sozinho a dificuldade de contratação. Salários, jornada, esforço físico, segurança e perspectivas de crescimento também influenciam a imagem de uma profissão. Quando uma atividade é percebida como cansativa, pouco reconhecida e sem possibilidade de ascensão, a dificuldade para atrair novos trabalhadores tende a aumentar, especialmente entre os mais jovens. 

Para David de Oliveira Fratel, vice-presidente da Comissão de Política de Relações Trabalhistas da CBIC, enfrentar a escassez exige também mudança cultural dentro das empresas e maior capacidade de adaptação às expectativas das novas gerações.

Liliane Menezes acrescenta que trabalhadores de áreas operacionais podem alcançar remunerações competitivas e defende a valorização da formação técnica, do conhecimento prático e da experiência.

“O que precisamos mudar é justamente essa percepção de que sucesso profissional está necessariamente ligado a trabalhar em um escritório ou ter um diploma superior. Precisamos valorizar também a formação técnica, o conhecimento prático e a experiência". 

O desencontro entre formação e as vagas disponíveis

Trabalhadores durante treinamento
Trabalhadores durante treinamento · DIVULGAÇÃO/FORÇA LOCAÇÕES

Mesmo quando existe interesse em trabalhar e há oferta de cursos, pode haver desencontro entre a formação disponível e a exigida para determinada vaga. Um trabalhador pode estar procurando emprego sem saber exatamente quais qualificações o mercado demanda, enquanto uma empresa pode ter dificuldade para encontrar profissionais preparados para funções específicas.

O problema não é necessariamente a falta de cursos. Instituições públicas, privadas e do Sistema S (Senai, Sebrae, Sesc e Senac) oferecem capacitação. As dificuldades podem estar na escala, na distribuição geográfica, na divulgação e, principalmente, na conexão entre os cursos oferecidos e as oportunidades existentes.

Em algumas profissões, são necessários cursos técnicos, certificados ou treinamentos específicos. Se a formação é cara, distante ou pouco conhecida, cria-se uma barreira de entrada. Em outras situações, existem cursos disponíveis, mas sem diálogo suficiente com as necessidades das empresas. A responsabilidade, porém, não pode ser colocada apenas sobre trabalhadores e poder público. Em um mercado marcado por mudanças tecnológicas aceleradas, as próprias empresas precisam participar da formação de seus profissionais.

O diretor jurídico da Associação dos Empresários da Serra (Ases), Giulio Ambroisi, também aponta a qualificação como um dos desafios diante da chegada de novos investimentos e da incorporação de tecnologias pelas empresas. “Temos investimentos chegando ao Espírito Santo, novas tecnologias sendo incorporadas às empresas e uma demanda crescente por profissionais preparados. Aproximar formação e mercado de trabalho é um debate que precisa envolver empresas, instituições de ensino e poder público”, afirma.

Bruno Chieppe, presidente da Assevix, defende maior aproximação entre a formação profissional e as necessidades reais do mercado, tanto para preparar trabalhadores para vagas já existentes quanto para desenvolver as competências exigidas pelas empresas. “Isso amplia as perspectivas de crescimento profissional. Mas, para isso, é necessária uma agenda permanente, com participação do poder público, setor produtivo e instituições de ensino.”

Remuneração que não fecha a conta

Transporte e espera no trânsito são alguns dos fatores que pesam na decisão do trabalhador
Transporte e espera no trânsito são alguns dos fatores que pesam na decisão do trabalhador · DIVULGAÇÃO/GVBUS

A dificuldade para preencher uma vaga começa, muitas vezes, pela conta que o trabalhador faz antes de aceitá-la. Presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (CRE-ES), Ricardo Paixão, avalia que a escassez não pode ser resumida à ideia de “falta de pessoas dispostas a trabalhar”, e observa que há um desencontro entre o que as empresas oferecem e o que o trabalhador considera suficiente para compensar os custos de ocupar aquela vaga.

 Em um cenário de maior pressão sobre o orçamento doméstico, o salário passa a ser comparado com o custo real de trabalhar. Paixão explica que existe o que os economistas chamam de "salário de reserva" — a remuneração mínima que torna uma vaga economicamente atrativa.

Ricardo Paixão · ACERVO PESSOAL
"Uma vaga só será atrativa se o salário de reserva cobrir itens essenciais que são afetados pela inflação, como alimentação, moradia, transporte e energia elétrica."

Uma vaga de R$ 2 mil, por exemplo, pode parecer uma oportunidade no papel. Para o trabalhador, porém, a pergunta é outra: quanto sobra depois de descontar transporte, alimentação, aluguel, cuidados com os filhos e outras despesas? O economista explica que o valor não garante hoje o mesmo padrão de consumo que garantia há cinco anos, já que a inflação acumulada no período reduziu o valor real dos rendimentos, enquanto despesas essenciais passaram a ocupar uma parcela maior do orçamento familiar. 

Dados da Consultoria Tendências mostram, por exemplo, que de cada R$ 100 recebidos pelos brasileiros, sobram, em média, R$ 21,70 para consumo após o pagamento de contas essenciais e dívidas.  A situação pode ser exemplificada pelo cenário em Vitória: a capital capixaba está entre as cidades com maior custo de moradia no País, segundo dados do Índice FipeZap. Para trabalhadores que recebem salários mais baixos, a proximidade entre o local de trabalho e a  residência afeta tanto o orçamento quanto o tempo livre, já que o gasto com transporte aumenta e o tempo perdido no trajeto também. 

Já do lado das empresas, um estudo realizado pela FGV Ibre mostrou que pequenos negócios convivem com margens reduzidas e aumento de custos operacionais, o que acaba por criar um impasse: o trabalhador considera a remuneração insuficiente, enquanto a empresa afirma não ter espaço financeiro para pagar mais. 

Para Paixão, uma possibilidade seria discutir desonerações fiscais direcionadas a setores menos favorecidos por incentivos, especialmente empresas de médio e pequeno porte. "Mas seria necessário um estudo aprofundado sobre a viabilidade, mapeando setores menos favorecidos por incentivos fiscais e que poderiam obter desonerações para oferecer melhores condições para contratar", afirma.

O advogado especialista em direito trabalhista Leonardo da Motta acrescenta outro ponto: a legislação também precisa acompanhar as transformações do mercado. Para Motta, a Reforma Trabalhista de 2017 modernizou aspectos como a negociação coletiva, o teletrabalho e o contrato intermitente, mas segundo ele, ainda há espaço para mudanças que mantenham a relação de trabalho simplificada, previsível e juridicamente segura.

Da Motta defende ainda maior diferenciação entre atividades, já que as condições de uma fábrica são diferentes das de um supermercado ou de uma pequena empresa familiar. “A negociação coletiva pode exercer papel fundamental para permitir que cada setor construa soluções compatíveis com sua realidade”, completa.

Benefício assistencial afasta trabalhador do emprego formal?

A ideia de que programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, fariam trabalhadores deixar de procurar empregos formais aparece com frequência no debate sobre a escassez de mão de obra. Mas especialistas ouvidos pela reportagem questionam essa relação como explicação para a dificuldade de contratação.

Rodrigo Maxwel, empresário, fundador e CEO da Mitis Tecnologia, rejeita a ideia de atribuir aos programas de transferência de renda a responsabilidade pela permanência dos trabalhadores na informalidade. “Geralmente são valores que não são suficientes para cobrir as despesas mensais de uma família. É um argumento raso”, considera.

O advogado Leonardo da Motta acrescenta que a entrada no mercado formal não necessariamente significa perda imediata de benefícios governamentais. “Há regras de proteção justamente para permitir uma transição, quando ocorre aumento da renda familiar."

As fontes ouvidas pelo PAINEL NEWS apontam que a decisão de aceitar uma vaga envolve outros fatores além dos benefícios assistenciais, como salário, custos de deslocamento, jornada, autonomia, condições de trabalho, perspectivas de crescimento e proteção social.

Um problema sem uma única solução

Os seis fatores mostram que a escassez de mão de obra não pode ser explicada apenas pela falta de trabalhadores. Salários que não acompanham o custo de vida, jornadas pouco atrativas, concorrência com formas autônomas de trabalho, o menor prestígio de determinadas profissões, o desencontro entre formação e necessidades das empresas e a relação entre benefícios assistenciais e emprego formal fazem parte de um mercado cada vez mais disputado.

Nesse cenário, encontrar profissionais deixou de ser apenas uma questão de abrir vagas. Para as empresas, o desafio passa também por oferecer condições capazes de atrair e reter trabalhadores e participar da formação de novos profissionais. Para trabalhadores e poder público, envolve ampliar oportunidades de qualificação e aproximar a formação das transformações do mercado.

Rodrigo Péret

Repórter Multimídia · Economia

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