Saúde no interior do estado: os exemplos para o ES a mudar seu cenário
Acidente, dias atrás, reascendeu debate sobre necessidade de ampliar atendimentos fora da Grande Vitória; exemplos no Brasil e no mundo mostram possibilidades
Por Rodrigo Péret
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 7 min de leitura

O problema é reconhecido há décadas por quem ocupa o governo do estado e também há décadas ele acaba sendo tema de campanhas eleitorais. Desnecessário dizer que se ele continua sendo tema de campanhas, é porque persiste. Estamos falando da deficiência do atendimento médico no interior do Espírito Santo. Sem rem atendimento médico e hospitalar satisfatório, os pacientes são obrigados a pegar a estrada para buscar consultas e procedimentos médicos na Grande Vitória. É uma rotina dolorosa e perigosa, por conta da insegurança nas estradas que cortam o estado.
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) reconheceu essa dificuldade em um documento técnico de 2025, elaborado para fundamentar a implantação de uma policlínica em Colatina. O relatório apontou deslocamentos frequentes de moradores do interior em busca de assistência especializada na Região Metropolitana, sobretudo na Capital, e classificou o cenário como uma fragilidade da rede estadual.
O debate acaba por voltar ao centro das atenções devido a um acidente em Guarapari que resultou na morte de uma mulher, de sua filha de sete anos e do motorista do veículo, que faziam um trajeto de Guaçuí para Vila Velha, onde a criança receberia atendimento cirúrgico no Hospital Estadual Infantil e Maternidade Alzir Bernardino Alves (Himaba).
Experiências brasileiras e internacionais mostram caminhos para enfrentar esse desafio, desde a habilitação de hospitais regionais para procedimentos complexos até a criação de policlínicas e centros especializados conectados a unidades de referência. O PAINEL NEWS traz algumas dessas soluções, que podem ser úteis para o Estado mudar esse cenário.
Sul amplia cirurgias especializadas
Em Santa Catarina, o Hospital Universitário Santa Terezinha, em Joaçaba, tornou-se referência em cirurgias ortopédicas de alta complexidade. Entre 2023 e agosto de 2026, a unidade realizou 1.130 operações de joelho e quadril, ampliando a oferta desses procedimentos para moradores do Meio-Oeste catarinense.
No Rio Grande do Sul, o Hospital Regional de Santa Maria atende pacientes de 34 municípios e oferece serviços como tomografia, terapia intensiva e hemodinâmica, utilizada no diagnóstico e tratamento de doenças cardiovasculares. Em outubro de 2025, realizou sua primeira cirurgia cardíaca, uma ponte de safena, ampliando a capacidade regional de assistência especializada.
Já o Paraná investiu no aumento da oferta cirúrgica por meio do programa Opera Paraná, que reúne hospitais públicos, filantrópicos e prestadores conveniados ao SUS. Em 2025, o Estado registrou 786.107 cirurgias eletivas, 61% a mais do que em 2022. Segundo o governo, o tempo médio de espera caiu de 105 para 57 dias.
Nordeste combina policlínicas e alta complexidade
No Piauí, a descentralização chegou à neurocirurgia. Hospitais de Floriano, Parnaíba e Picos realizaram 1.742 procedimentos entre 2022 e 2024. A Secretaria de Estado da Saúde relatou redução nas transferências para Teresina, mas não divulgou o tamanho da queda.
A Bahia adotou uma estratégia voltada principalmente à ampliação de consultas especializadas e exames. O Estado mantém 26 policlínicas regionais, administradas com participação de consórcios públicos que reúnem municípios. Em balanço divulgado em 2026, o governo informou que a rede havia ultrapassado 9,7 milhões de atendimentos e alcançado 416 municípios. O tempo médio de espera para consultas especializadas, segundo dados citados pelo Estado, era de 12,5 dias, ante 57 dias na média nacional.
No Ceará, a regionalização reúne 22 policlínicas, 22 centros de especialidades odontológicas e hospitais regionais. Enquanto as policlínicas oferecem consultas e exames, os hospitais complementam a rede com internações e procedimentos mais complexos. Em Maracanaú, uma unidade iniciou um projeto-piloto de aplicação de medicamentos intraoculares para tratar doenças da retina, levando um serviço especializado para mais perto da população.
Inglaterra leva tratamentos para perto de casa
A Inglaterra também criou alternativas para reduzir a necessidade de deslocamentos frequentes. Em Manchester, o centro oncológico The Christie mantém 13 unidades locais e oferece atendimento domiciliar. Em um ano, 56.207 atendimentos foram realizados fora da sede. O hospital estimou que a iniciativa evitou 1,7 milhão de milhas de viagens, cerca de 2,8 milhões de quilômetros.
Outra experiência é o Worcestershire Oncology Centre, que oferece radioterapia no próprio condado desde 2015. A instituição estima atender 95% dos pacientes locais que precisam do tratamento e evitar cerca de 1 milhão de milhas de viagens por ano.
A descentralização também alcança as cirurgias programadas. O South West London Elective Orthopaedic Centre, em Epsom, realiza aproximadamente 6 mil operações ortopédicas por ano, incluindo cerca de 3.200 substituições de articulações. Nesse caso, os dados demonstram a capacidade cirúrgica do centro, mas não comprovam, por si só, uma redução dos deslocamentos.
Itália leva oncologia a uma comunidade montanhosa
Na região italiana da Emilia-Romagna, o centro comunitário de saúde de Bettola passou a oferecer consultas de oncologia e hematologia, administração de medicamentos, exames e procedimentos selecionados. A unidade funciona integrada a um hospital de referência, que recebe os casos que exigem estrutura mais complexa.
Entre 2016 e 2021, 157 pacientes receberam 2.292 intervenções no centro local. Um estudo estimou que o serviço evitou 218.566 quilômetros de viagens. A experiência mostra como parte do tratamento oncológico pode ser realizada perto de casa, mesmo quando depende de profissionais especializados e da articulação com um hospital de maior porte.
Índia e Austrália ampliam serviços especializados
Na Índia, o Ministério da Saúde informou, em julho de 2026, que o país tinha 524 centros de atendimento diurno para pacientes com câncer e 770 clínicas distritais voltadas a doenças não transmissíveis. Parte do tratamento é oferecida em hospitais distritais, enquanto procedimentos mais complexos ficam concentrados em centros de referência. Os números, porém, não permitem determinar quantas viagens foram evitadas.
Na Austrália, o Hospital Universitário de Townsville passou a realizar trombectomia mecânica, procedimento usado em determinados casos de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico. Entre 2022 e 2024, 120 pacientes foram tratados na unidade. Um estudo apontou tempo mediano de 112 minutos entre a chegada ao hospital e o início da intervenção para pacientes locais, contra 315 minutos para aqueles transferidos de outras unidades. O caso evidencia a importância de ampliar a capacidade regional em procedimentos nos quais o tempo influencia o prognóstico.
Alemanha combina acesso e critérios de qualidade
A Alemanha organiza o atendimento oncológico em uma rede de centros certificados, submetidos a critérios de qualidade, protocolos clínicos e volumes mínimos de procedimentos. Em 2024, cerca de 60% dos novos casos de câncer eram tratados nesses centros, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O modelo não significa distribuir todos os tratamentos igualmente entre os hospitais. Algumas cirurgias de alto risco permanecem concentradas em unidades com equipes experientes e estrutura adequada. A experiência alemã reforça que a regionalização precisa aproximar os serviços sempre que possível, sem comprometer a segurança do paciente.
Leitos também ajudam a dimensionar o desafio
A dificuldade de acesso não se resume à distância percorrida. A capacidade hospitalar e a distribuição dos serviços também precisam entrar no debate.
Dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), compilados em publicação do governo estadual, indicavam que o Espírito Santo tinha 7.111 leitos destinados exclusivamente ao SUS em setembro de 2025, o equivalente a cerca de 1,74 leito por mil habitantes, considerando a estimativa populacional de 2024. Incluindo a rede pública e a privada, eram 11.036 leitos, ou aproximadamente 2,70 por mil habitantes. Confira os dados.
É importante, porém, não comparar esses números com uma suposta meta universal da Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade esclarece que não existe um padrão global único de leitos hospitalares por habitante. Além do total disponível, é necessário considerar a distribuição geográfica, a ocupação, a oferta de profissionais e a capacidade de cada unidade para realizar procedimentos específicos.
O que o Espírito Santo pode aprender?
As experiências mostram que interiorizar a saúde não significa oferecer todos os procedimentos em todos os municípios. Consultas, exames, tratamentos recorrentes e cirurgias compatíveis com a estrutura regional podem ser aproximados da população. Já as intervenções que exigem tecnologia e equipes altamente especializadas podem permanecer em centros de referência, desde que os encaminhamentos sejam organizados e o acesso esteja garantido.
No Espírito Santo, um dos primeiros passos seria mapear quais atendimentos mais levam pacientes à Grande Vitória, de quais municípios eles vêm e quais especialidades concentram a demanda. Também seria necessário avaliar a capacidade dos hospitais regionais, as filas por procedimento e os investimentos necessários em profissionais, equipamentos e infraestrutura.
O sucesso de uma política de regionalização deve ser medido não apenas pelo número de consultas, exames e cirurgias realizados, mas também pela redução efetiva das viagens, pelo tempo de espera e pela segurança do atendimento. O desafio é organizar uma rede que ofereça o tratamento adequado tão perto da residência quanto for possível, sem comprometer a qualidade da assistência.

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