Mobilização contra a abstenção marcam virada no segundo turno
Canal de WhatsApp criado por André Janones passou de 10 milhões de seguidores. A ausência nas urnas caiu ao menor nível em segundo turno desde 2006.
· Atualizado em · 3 min de leitura

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou ao segundo turno atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL). Nas três semanas seguintes, a esquerda concentrou esforços em um objetivo: levar às urnas quem não tinha votado em 4 de outubro. No domingo (25), a abstenção caiu e Lula foi reeleito.
Segundo o TSE, a abstenção foi de 19,21%, o menor índice em um segundo turno desde 2006. Cerca de 30,4 milhões de eleitores não votaram, contra 33,4 milhões no primeiro turno. Lula venceu com 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% de Flávio.
O canal que virou “exército”
A principal ferramenta dessa mobilização foi o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, comandado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Na noite do primeiro turno, Janones convocou apoiadores para atuar como “soldados” na campanha. Ele disse que pretendia intensificar a atuação nas redes e disputar as narrativas com os adversários.
O canal teve forte crescimento. No começo da campanha do segundo turno, passou de 50 mil para quase 1 milhão de seguidores. Em 23 de outubro, chegou a 10 milhões. A pedido da campanha de Flávio Bolsonaro, o canal chegou a ser suspenso temporariamente por decisão do TSE, mas depois foi restabelecido.
A estratégia de Janones era falar “a língua do povo”. Ele defendia vídeos gravados com celular, mostrando Lula no dia a dia com a população, em um modelo de “mais calçada e menos helicóptero”. Fã-clubes de artistas pop, como Anitta, Beyoncé, Taylor Swift e BTS, também ofereceram seus perfis à campanha. O foco era engajar jovens, combater a abstenção e conversar com quem tinha anulado ou votado em branco no primeiro turno.
A “última missão”
Na véspera da votação, Janones chamou os membros do canal para uma “última missão”: votar e convencer outras pessoas a votar. Ele pediu que os apoiadores oferecessem caronas no dia da eleição e convencessem familiares a ir às seções eleitorais. Também fez apelos a quem tinha faltado ao primeiro turno e a eleitores com voto facultativo, como pessoas com mais de 70 anos.
A campanha de Lula definiu seu público com clareza: os eleitores que não votaram no primeiro turno, principalmente no Nordeste. A ideia era trazer de volta pessoas que já tinham votado em Lula no passado, mas faltaram em 4 de outubro.
Os dados do TSE mostram queda forte da abstenção nessa região. Na Bahia, ela caiu de 19,97% para 16,74%, a maior queda do país. Em Pernambuco, caiu de 18,17% para 15,19%. Lula teve 71,31% dos votos válidos na Bahia e 69,19% em Pernambuco.
O que dizem os analistas
Uma pesquisadora ouvida pela Agência Pública avaliou que o segundo lugar de Lula, depois de um primeiro turno morno e com a esquerda pouco engajada, levou apoiadores a se mobilizarem. As “missões” de Janones no WhatsApp deram a essas pessoas um papel de protagonistas, e isso teria sido central para reduzir a abstenção. Segundo ela, o que mobilizou os eleitores foi a emoção e o medo de uma vitória de Flávio Bolsonaro.
O reconhecimento veio até de adversários. Renan Santos (Missão), ex-candidato à Presidência e uma das lideranças do MBL, atribuiu a Janones parte da recuperação da mobilização petista e chamou sua atuação de “fenômeno da natureza”.
No discurso da vitória, Lula atribuiu parte do resultado à mobilização da militância. Ele citou a participação de jovens e idosos, incluindo eleitores com dificuldade de locomoção que foram levados para votar.
Um padrão que se inverteu
Nas sete eleições presidenciais anteriores a 2026 desde a redemocratização, a abstenção aumentou entre os turnos em seis. Em 2022, ela já tinha caído, mas só 0,38 ponto. Desta vez, a queda foi de 1,87 ponto. Os votos brancos e nulos também caíram, para 3,23%, o menor índice em uma eleição presidencial desde a redemocratização.
O que os números não mostram
Os percentuais não permitem saber qual candidato teve mais votos entre os eleitores que faltaram ao primeiro turno e votaram no segundo. A abstenção também caiu em estados onde Flávio venceu. Em São Paulo, passou de 22,54% para 19,79%, e Flávio teve 53,85% dos votos válidos no estado. Em nove unidades da Federação, a abstenção aumentou.
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.




