Quem é o responsável pelo nosso envelhecimento?
Alimentação, sono, movimento e vínculos: o que fazemos repetidamente define a forma como envelhecemos, diz geriatra
Colunista do Painel News · · Atualizado em · 2 min de leitura
A cada ano, vivemos mais. A longevidade, que durante muito tempo foi vista quase como um privilégio de poucos, tornou-se uma realidade para parcelas cada vez maiores da população. Viver muito é inevitável para a maioria, mas uma pergunta precisa acompanhar essa conquista: como queremos viver esses anos a mais?
Como geriatra, frequentemente sou questionado sobre o que determina a maneira como vamos envelhecer. A resposta não é simples. Nossa história é resultado de uma combinação de genética, ambiente, condições sociais, acesso à saúde, oportunidades ao longo da vida e, muito pouco ao acaso.
Mas a notícia boa é que destes determinantes a maior influência vem de um componente sobre o qual temos uma influência muito maior do que costumamos imaginar: as nossas escolhas cotidianas.
Não estou falando de uma fórmula mágica para impedir doenças ou garantir uma velhice sem limitações. Isso não existe. Estou falando de algo mais concreto: aquilo que fazemos repetidamente, durante anos e décadas.
O que colocamos no prato.
Quanto nos movimentamos.
Como dormimos.
Como lidamos com o estresse.
Se fumamos ou consumimos álcool em excesso.
Se mantemos nossas vacinas e cuidados de saúde em dia.
Se cultivamos vínculos, amizades e relações afetivas.
Se continuamos aprendendo, trabalhando, criando e encontrando sentido para a vida.
Não são as escolhas de um único dia que definem nosso envelhecimento. São os hábitos que repetimos durante milhares de dias.
É claro que a genética importa. Algumas pessoas partem de condições mais favoráveis do que outras. O ambiente também importa e muito. Renda, educação, segurança, alimentação disponível, condições de moradia e acesso aos serviços de saúde interferem profundamente na forma como envelhecemos.
Por isso, falar em responsabilidade individual não significa ignorar a responsabilidade da sociedade e do poder público.
Mas também não podemos transferir tudo para a genética, para o médico ou para o sistema de saúde.
A medicina pode prevenir, diagnosticar, tratar e reabilitar. Pode acrescentar anos à vida. Mas dificilmente conseguirá, sozinha, acrescentar vida aos anos.
Essa construção começa muito antes dos 60, 70 ou 80 anos. Na verdade, começamos a construir nossa velhice décadas antes de chegarmos a ela.
E existe algo ainda mais interessante: nunca é tarde demais para começar.
Uma pessoa de 70 anos que passa a se exercitar, melhora sua alimentação, abandona o cigarro, cuida do sono, amplia seus vínculos sociais e controla adequadamente suas doenças está fazendo algo muito importante pelo seu futuro, mesmo que parte da sua história já esteja escrita.
Envelhecer bem não significa permanecer jovem. Significa preservar, pelo maior tempo possível, aquilo que torna a vida verdadeiramente nossa: autonomia, funcionalidade, vínculos, capacidade de escolher e de participar da própria história.
Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja “quanto tempo vou viver?”.
Mas sim:
“O que estou fazendo hoje para decidir como quero viver os meus próximos anos?”

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