Empatia e compaixão
Os muitos aprendizados de uma experiência incomum: pessoas passaram duas horas vendadas e de bengalas, para sentir dificuldades de quem tem alguma deficiência
Por Daniel Grechi
· Atualizado em · 3 min de leitura

No dia 14 de dezembro de 2025, em alusão ao Dia Nacional da Pessoa com Deficiência Visual, celebrado no dia 13, resolvi fazer algo diferente. Reuni um grupo de amigos no bar Buchicho e propus uma vivência: durante duas horas, eles ficariam vendados, apoiados em uma bengala, orientados por mim antes de começar, para viver uma tarde comum da forma como eu vivo todos os dias.
Enquanto eles enfrentavam a experiência, eu cozinhei para o grupo. Parece simples, mas não é. Levantar, buscar uma cerveja, servir o próprio copo, ir ao banheiro: tarefas que para a maioria das pessoas são automáticas se tornam, de repente, desafios reais quando falta a visão. É esse cotidiano que eu vivo, e que eles, por duas horas, vivenciaram comigo.
Teve um momento particular que me marcou: o Kelsio, que normalmente é meu guia nas corridas, trocou de lugar. Foi ele quem correu vendado daquela vez, guiado por outro amigo.
Quem guia, naquele dia, foi guiado. E o Kelsio sentiu, na pele, o que é o medo: travou, a insegurança tomou conta, e ele não conseguiu completar os cinco quilômetros que havíamos planejado. Não foi falta de preparo físico. Foi o peso de correr sem ver o caminho.
De tudo o que vivi observando aquela tarde, o que mais me tocou foi entender, na prática, o que realmente significam duas palavras que a gente usa com frequência, mas raramente sente de verdade: empatia e compaixão.
Empatia vem do grego empatheia, formada por en (em) e pathos (sentimento): sentir por dentro o que o outro sente. Compaixão vem do latim compassio, de com (junto), e pati (sofrer): sofrer junto com alguém. E foi exatamente isso que aconteceu naquele bar: meus amigos não apenas imaginaram como é ser uma pessoa cega, eles se colocaram, de corpo e tempo, no meu lugar. Viveram, mesmo que por duas horas, a dificuldade de uma tarefa simples, a insegurança de um passo sem certeza do que vem a seguir, a necessidade de confiar em outra pessoa para se guiar.
Eu sei que aceitar passar por isso não é uma atitude comum, e muito menos fácil. Exige disposição para se expor, para abandonar o controle, para admitir que não se sabe o caminho. E, por isso mesmo, o respeito que senti por cada um deles que aceitou embarcar nessa vivência foi imenso.
Ao final daquela tarde, percebi uma mudança em como eles passaram a olhar para o mundo, para as pessoas, para os próprios caminhos dos outros. Não foi uma palestra, não foi uma explicação teórica sobre inclusão. Foi vivência. Foi corpo. Foi tempo compartilhado na posição do outro.
Acredito que é isso que falta, muitas vezes, quando discutimos acessibilidade e inclusão: sair do campo da teoria e entrar no campo da experiência. Porque é fácil dizer que se compreende uma dificuldade. É bem mais raro se dispor a sentir essa dificuldade na pele, ainda que por pouco tempo.
Fico feliz e grato por ter amigos dispostos a isso. E fico, sobretudo, esperançoso de que vivências como essa multipliquem, em cada um deles, um olhar mais atento, mais cuidadoso e mais humano para quem vive essa realidade todos os dias, não por duas horas, mas para a vida toda.
Fico pensando em quantas pessoas vivem fechadas dentro de si mesmas, como se o mundo girasse apenas em torno da própria experiência. E eu te convido, que está lendo este texto, a sair um pouco desse lugar. Existe um mundo diverso ao seu redor, cheio de gente enfrentando dificuldades que você talvez nunca tenha parado para imaginar, sejam elas motoras, sejam elas emocionais, sejam elas invisíveis aos seus olhos. Nos movermos de verdade na direção do outro, sentir com o outro, é o que nos torna, de fato, mais humanos.
Vivemos tempos de relações rasas, onde somos pouco verdadeiros com os outros e, muitas vezes, pouco verdadeiros com nós mesmos. Por isso deixo este convite: permita-se sentir mais, se aproximar mais, se comover mais. Porque é na entrega ao outro, no cuidado real com quem caminha ao seu lado, que a vida deixa de ser superficial e se torna, enfim, profunda e plena.
Instagram: @danielgrechi

Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.
