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TRADIÇÃO AMEAÇADA

Projeto atrai jovens para manter tradição do congo no ES

Diante do envelhecimento dos mestres, projetos como o Tambores do Amanhã propõem caminhos para que a preservação da tradição não dependa só da hereditariedade

Por Nicolly Credi-Dio

Repórter Multimídia · · Atualizado em · 7 min de leitura

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O congo é reconhecido como patrimônio imaterial do Espírito Santo desde 2014, mas, muito antes do reconhecimento oficial, essa tradição já fazia parte da identidade cultural capixaba. Grupos como a Banda de Congo de São Benedito de Rio Claro, de Guarapari, e a Banda de Congo Santa Isabel, de Cariacica, possuem mais de 100 anos de existência. Mas nem a lei nem a tradição centenária garantem que o congo continue sendo tocado daqui a uma geração. “A continuidade é uma possibilidade construída, não uma consequência automática da existência passada da tradição”, afirma a historiadora Thiara Bernardo Dutra, doutora em História pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que pesquisou de perto os povos tradicionais do Estado e suas manifestações culturais.

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Dra. Thiara Bernardo Dutra · FOTO: ARQUIVO PESSOAL

De acordo com Thiara, a transmissão dos saberes do congo vai muito além de passar adiante o conhecimento sobre os modos de entoar canções, dançar ao ritmo das batidas, confeccionar e tocar instrumentos como casacas, tambores e bumbos. A tradição abrange também uma dimensão simbólica, que envolve as memórias dos antepassados, a influência religiosa e, sobretudo, os valores compartilhados entre os integrantes. “O congo é visto como um compromisso, uma cooperação e uma responsabilidade com a banda. E, o mais interessante, cada banda possui uma maneira particular de se relacionar com a comunidade e com o território”, diz a historiadora.

De pais para filhos

A pesquisadora explica que o pertencimento familiar historicamente favoreceu a continuidade das bandas de congo. Isso porque, por estarem inseridos na cultura desde cedo, os filhos aprendiam a tradição desde a infância a partir das vivências em comunidade e, em alguns casos, assumiam o papel de mestres, após o afastamento dos mais velhos. Contudo, Thiara ressalta que essa transmissão nunca foi uma obrigatoriedade hereditária e a forma como ela acontece vem mudando.

“Hoje em dia, a gente percebe que essa convivência deixou de ser tão automática em alguns lugares e vemos surgir outras formas de aproximação, como por exemplo, a partir dos projetos culturais  de fomento à cultura e de preservação do patrimônio cultural”. 

Essa mudança tem um reflexo direto sobre quem hoje carrega a tradição adiante. Pois, enquanto alguns jovens que cresceram em famílias de congueiros não demonstram interesse em continuar, outros, que não nasceram nessas comunidades escolhem se aproximar. É nesse segundo grupo que aparece um dos nomes mais jovens à frente de uma banda no Espírito Santo hoje.

Um mestre sem herança de sangue

Mestre Wesley Jhoni · FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Aos 25 anos, o educador musical Wesley Jhoni já é mestre de congo. O título não foi herdado, foi construído ao longo de mais de uma década. Desde os 12 anos, Wesley participa das rodas da Banda de Congo de Alto Rio Calçado e, incentivado pelo Mestre Domingos, com quem aprendeu sobre a tradição, fundou a Banda de Congo de São Benedito da Praia do Morro, em Guarapari. O grupo reúne congueiros de diferentes bandas que deixaram a área rural do município, mas mantêm o desejo de continuar tocando congo. 

“Foi difícil ganhar o respeito dos antigos sendo jovem, mas eu ganhei. Chega um momento em que os mais velhos entendem que você é a continuação deles, então as coisas começam a fluir. É preciso que esse movimento aconteça”.

Jovens entram na roda

Desde a fundação da banda, Wesley percebeu a presença de muitos jovens nas  rodas de congo. Para ele, parte desse interesse está relacionada à própria imagem de um mestre jovem, que ajuda a romper com a ideia de que o congo seria uma manifestação restrita aos homens mais velhos. “Quando você vai a uma roda de congo e só vê pessoas de 70 anos, você tem uma referência, mas quando você chega e vê muitos jovens, você se vê lá. Essa representatividade

é importante”, afirma o mestre.

Foi a partir da observação que surgiu o Tambores do Amanhã, projeto criado em 2025 pela Sinestesia – Criatividade Coletiva, associação da qual Wesley faz parte. Ele foi concretizado com recursos do Funcultura, da Secretaria de Estado da Cultura (Secult). A iniciativa busca preservar a tradição do congo em Guarapari, por meio da oferta de oficinas de congo para crianças e jovens. De acordo com o mestre, desde a criação, cerca de 600 jovens passaram pelas oficinas realizadas em escolas da rede pública do município. Porém, em alguns territórios o projeto enfrentou desafios devido, principalmente, à intolerância religiosa. Segundo Wesley, a resistência se deve ao fato de que muitas famílias associam o congo a religiões de matriz africana, vistas por parte dessas comunidades de forma negativa.

O congo vai à escola

Entre os participantes que se envolveram, uma parte foi posteriormente integrada à Banda de Congo de São Benedito da Praia do Morro, que não possui restrição de idade para integrantes. Hoje, mesmo sem novos recursos de incentivo, a banda continua realizando oficinas e apresentações em escolas, com o objetivo de aproximar estudantes dessa manifestação cultural. Segundo Wesley, essa continuidade sem financiamento não é exceção, é a regra. Para o mestre, um dos principais fatores que dificultam a manutenção de bandas de Congo é justamente a forma como o

financiamento cultural é estruturado. O acesso a editais exige conhecimentos e procedimentos que nem sempre fazem parte da realidade dos mestres e das comunidades tradicionais. 

"Para mim, escrever um edital é simples, mas nem sempre um mestre que vive na região rural, por exemplo, tem condições de fazer a inscrição no Mapa Cultural e submeter um projeto. Então precisamos pensar em uma forma de incentivo que não premie um projeto a ser executado, mas o trabalho contínuo que já vem sendo realizado".


Uma tentativa de resposta a essa lacuna foi discutida no 8º Fórum de Mestres da Cultura Popular, realizado em março deste ano, em Aracruz: a Lei das Mestras e Mestres das Culturas Populares, proposta que busca assegurar reconhecimento, direitos e remuneração aos guardiões das tradições culturais brasileiras. Enquanto essa discussão avança, outra lacuna segue em aberto. Mesmo sendo patrimônio protegido por lei, o Congo capixaba carece de um retrato atualizado de quantas bandas resistem hoje no Estado.

Os números da tradição

Levantamento de bandas de congo do Espírito Santo identificadas no Atlas do Folclore Capixaba (2009). · FOTO: SECULT/ES

O dado mais recente da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) sobre o número de bandas de Congo, publicado no Dossiê "Congo: Patrimônio cultural do Espírito Santo", em 2022, aponta 61 bandas em atividade no Estado. Mas a fonte original desse número é o Atlas do Folclore Capixaba, de 2009, o que significa que o levantamento oficial mais recente reproduz um dado com mais de 17 anos.

Foi em busca de preencher essa lacuna de registro em âmbito local que o projeto Tambores do Amanhã produziu o e-book Memórias do Tambor: o Congo em Guarapari, levantamento realizado pela historiadora Thiara Bernardo Dutra e disponibilizado gratuitamente pela associação. O e-book reúne informações sobre as bandas e mestres do município, com o objetivo de preservar a memória da tradição e, ao fazer isso, expôs uma defasagem que passou despercebida pelos registros oficiais. Enquanto o Atlas de 2009, contabilizava apenas 3 bandas de Congo em Guarapari, a pesquisa de Thiara, publicada em 2025, identificou 13 bandas, sendo 8 delas atuantes, 2 em processo de resgate e 3 adormecidas. Só nesse município, o número mais que quadruplicou em relação ao dado que ainda hoje serve de base para as estatísticas estaduais.

Os números disponíveis hoje permitem duas leituras opostas. A primeira é a mais temida: que o congo capixaba esteja, de fato, encolhendo, diante das bandas que ficaram adormecidas e dos mestres que envelheceram sem sucessores ao longo dos últimos 17 anos. A outra leitura possível é menos alarmante, mas igualmente incerta: que o problema não seja o desaparecimento de bandas, e sim a subnotificação. Se, em 2025, Guarapari tinha mais de quatro vezes o número de bandas que o Atlas de 2009 registrava, é possível que o mesmo padrão se repita nos outros municípios capixabas e que o Congo esteja mais presente no Estado do que os dados oficiais sugerem. Entretanto, sem um levantamento amplo atualizado, não há como saber qual das duas hipóteses é a verdadeira.

Nicolly Credi-Dio

Repórter Multimídia · Cultura

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