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MOBILIDADE

Bikes crescem 280% no ES, viram solução e problema. Saiba o que foi feito fora daqui

Foram 51 mil unidades comercializadas desde 2024. Os acidentes subiram junto, e cada cidade da Grande Vitória tem uma regra diferente

Por Leandro Manhães

Repórter Multimídia · · Atualizado em · 6 min de leitura

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ciclista acessando a Ciclovia da Vida
Ciclista acessando a Ciclovia da Vida · FOTO: AQUILES BRUM/PAINEL NEWS

Hoje, sete em cada dez bicicletas que cruzam a Terceira Ponte são elétricas. Há dois anos, era uma. As bikes com motor estão por toda parte — viraram a solução de quem precisa atravessar a Grande Vitória todo dia e, ao mesmo tempo, um problema de convivência com carros e pedestres.

Dados da Companhia Estadual de Transportes Coletivos de Passageiros do Estado do Espírito Santo (CETURB), apontam, por exemplo, que de janeiro a agosto deste ano, 743.205 bicicletas passaram pela ciclovia da Terceira Ponte. A expectativa é a de que até o fim de 2026 sejam realizadas 1 milhão de travessias pela ciclovia. Em 2025, foram  845.275 passagens.

O  diretor de gestão de rodovias da CETURB, José Eduardo de Souza Oliveira, destaca o aumento  de ciclistas nesses últimos três anos na ciclovia.

"Nós podemos identificar que em 2024 a proporção entre bike elétrica e a bike convencional era de 10%, em 2025 já subiu para 35% essa proporção e até agosto de 2026, essa proporção já está em 70% de bikes elétricas do total de de bikes que circulam pela Ciclovia da Vida"

51 mil unidades em dois anos e meio

O que a ponte mostra, os documentos fiscais confirmam em escala estadual. Em 2024, o Espírito Santo comercializou 5.082 bicicletas elétricas. No ano seguinte, foram 19.308. Nos sete primeiros meses de 2026, já são 26.827 — mais do que todo o ano anterior.

São 51,2 mil unidades em dois anos e meio, cerca de R$ 395 milhões movimentados, segundo dados da Secretaria de Estado da Fazenda. O ticket médio deste ano fica perto de R$ 7,3 mil.

Entre motivos que estão por trás desse aumento de ciclistas pela Ciclovia da Vida utilizando a bicicleta elétrica, o diretor da Ceturb cita a proximidade entre o municípios que fazem parte da Região Metropolitana da Grande Vitória.

"Com a implantação e inauguração da Ciclovia da Vida, que diminuiu a distância entre as cidades de Vitória e Vila Velha, Vila Velha e Serra, Serra e Vila Velha e Cariacica, as pessoas tiveram essa opção e estão comprando a ideia de ter um deslocamento mais rápido, seguro e mais econômico".

O outro lado da curva

A solução de mobilidade virou um problema urbano. As bicicletas elétricas se envolveram em 804 acidentes no Espírito Santo entre 2023 e julho de 2026, segundo o Observatório Estadual da Segurança Pública. Setenta ocorrências foram graves e nove pessoas morreram. Ao menos 175 vítimas sofreram lesão na cabeça. No primeiro trimestre de 2025 foram 28 registros; no mesmo período de 2026, 134.

As internações de ciclistas na rede pública estadual passaram de 373 em 2024 para 565 em 2025, alta de 51,5%, segundo a Secretaria de Estado da Saúde.

Cinco cidades, várias regras

A velocidade da mudança explica parte do problema. O equipamento chegou às ruas antes das regras. Pior: não há uma unificação do debate entre os municípios da Grande Vitória. Resultado: cada prefeitura define regras próprias.  Ou nem define.

Vitória aprovou em abril um Código Municipal de Micromobilidade, com limites de velocidade definidos pela via e capacete obrigatório. Vila Velha tem lei desde 2025, com teto de 20 km/h em ciclovias e ciclofaixas. Serra e Viana discutem projetos. Cariacica não tem norma específica. Em agosto, o Conselho Estadual de Trânsito padronizou os procedimentos de fiscalização em todo o Estado. Resultado, o ciclista pode sair de Vila Velha obedecendo uma regra, passar por Vitória, onde existem outras. E chegar na Serra sem saber exatamente qual regra deve seguir. O controle municipal é frágil: nenhum prefeitura sabe dizer exatamente quantas bicicletas elétricas circulam pelas suas ruas.

Um mercado em expansão

Segundo dados da Junta Comercial do Espírito Santo,  existem hoje mais de

6 mil empresas ativas

relacionadas ao comércio varejista de bicicletas, triciclos, peças e acessórios no estado, o investimento em um modelo elétrico varia  de R$ 4 mil  a R$ 15 mil dependendo do modelo. 

Dona de uma loja em Vitória que vende modelos elétricos, acessórios e faz  manutenção,  Franceila Deriz da Rocha entrou neste mercado em 2019 com o aluguel de patinetes, em 2022 passou a vender também, ela trabalha com 10 diferentes modelos,  chega a vender 20 unidades por mês, porém cita a forte concorrência como algo negativo que está diminuindo a margem de lucro de quem investe no setor.ㅤ

Menos tempo no trânsito, economia e qualidade de vida

Muito antes de se tornar tendência, desde 2015 que a bicicleta é o principal meio de transporte da Érika Piskac, 35 anos, jornalista. Um dos motivos apontados por ela para escolher a "magrela" é a liberdade que a bike proporciona para fugir do caos no trânsito, economia e bem-esta. 

bike elétrica
Erika Piskac · FOTO: AQUILES BRUM/PAINEL NEWS

"Só vejo vantagens de estar de bike, pois pratico atividade física e passo por lindos caminhos, só me faz bem,  na bike você vê a vida acontecer, a única desvantagem eu diria é quando chove, mesmo assim eu encarro, coloco minha capa de chuva,  além  da insegurança a noite e o grande número de pessoas despreparadas conduzindo bicicletas elétricas. "

O que outras cidades já tentaram

Nova York adotou, em outubro de 2025, limite de 15 milhas por hora, cerca de 24 km/h, para bicicletas elétricas, patinetes e bicicletas comerciais assistidas em toda a cidade. A prefeitura optou por educação, com advertência ao primeiro infrator. O obstáculo é prático e admitido pela própria administração: a maioria das bicicletas não tem velocímetro, e o condutor não sabe a que velocidade anda. Entidades de segurança viária chamam a medida de paliativa e defendem emplacamento obrigatório.

Paris foi ao extremo oposto. Um referendo em 2023 baniu os patinetes elétricos compartilhados da cidade. A gestão municipal admite, porém, não ter feito nenhum estudo desde então: não se mediu efeito sobre acidentes nem sobre a migração para equipamentos particulares.

A Holanda mirou em outro alvo, a adulteração dos limitadores de velocidade. Multas entre 290 e 320 euros, confisco na reincidência e proibição da venda de kits de destravamento desde 2024. A experiência também produziu um fracasso instrutivo: diante da hipótese de regular as bicicletas pela largura do pneu, o mercado lançou modelos de pneu fino em poucos meses. O ministério responsável passou a tratar proibição baseada no desenho do veículo como caminho sem saída.


No Brasil, o Rio de Janeiro criou cadastro obrigatório desses equipamentos e fiscalização com aferição de velocidade e de características técnicas, inclusive inspeção em lojas.

O caso de Santos

Santos tem muitas semelhanças com cidades da Grande Vitória. Plana, com orla contínua e uma ciclovia que corre rente à praia, o município enfrentou o mesmo conflito e legislou antes de todos: a Lei 4.221/2023 regulamenta a circulação de bicicletas motorizadas e equipamentos autopropelidos nas vias, ciclovias e ciclofaixas.

A regra santista não olha para a velocidade primeiro, e sim para a potência do motor. Motocicletas e motonetas acima de 4.000 W estão proibidas na ciclovia. Ciclomotores entre 1.000 W e 3.000 W também. O teto de velocidade é de 20 km/h. Estão vedados ainda o transporte de passageiro sem autorização e o de carga.

Um problema, no entanto, se repete: na prática, a fiscalização quase não pune. Em uma operação de fim de semana, foram feitas 61 abordagens e não se registrou nenhuma autuação nem apreensão — o trabalho foi todo de orientação.

O padrão se repete. Nova York começou por advertência, São Paulo adotou regras no final de agosto, mas adiou as multas por 45 dias, Santos abordou 2.450 vezes sem autuar, e o projeto em discussão na Serra dispensa multa por opção declarada do autor. Entre escrever a regra e aplicá-la, as cidades vêm escolhendo esperar. Enquanto isso, as bicicletas elétricas se multiplicam nas ruas. E os acidentes também.

Leandro Manhães

Repórter Multimídia · Trânsito

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