Especialista sugere organização da redação em cinco etapas: leitura atenta da proposta, planejamento, elaboração do rascunho, revisão e reescrita · FOTO: ARQUIVO/AGÊNCIA BRASIL
Com quase 40 anos de experiência em sala de aula e passagens pela banca de correção do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a professora Marli Siqueira Leite, colunista do PAINEL NEWS, tem um conselho fundamental para os candidatos: não comece a escrever antes de planejar.
A pedido do PAINEL NEWS, ela apresentou um roteiro com cinco etapas para organizar a redação: leitura atenta da proposta, planejamento, elaboração do rascunho, revisão e reescrita. A orientação é evitar que a ansiedade e a pressão do tempo comprometam a construção do texto.
Marli participou da correção do Enem em três ocasiões, incluindo os primeiros anos do exame, em 2001 e 2002. Segundo ela, os critérios de avaliação continuam organizados em cinco competências, mas ganharam detalhamento ao longo do tempo.
Atenção ao tema e aos textos motivadores
O primeiro cuidado começa antes mesmo da escrita. A professora recomenda uma leitura atenta do tema e dos textos motivadores, identificando as palavras centrais da proposta.
Termos como “desafios”, “impactos” e “obstáculos”, por exemplo, ajudam a definir o caminho da argumentação. O candidato precisa responder ao que foi efetivamente solicitado, sem fugir do assunto.
Os textos motivadores também exigem atenção. Marli explica que o estudante não deve copiar trechos da coletânea. Dados estatísticos e referências a leis podem ser aproveitados, desde que acompanhados de análise própria.
O repertório utilizado na argumentação deve vir da bagagem cultural e dos conhecimentos do candidato: livros, filmes, estudos, pensadores e situações observadas no cotidiano.
“Não pode ser um repertório de bolso”, alerta a professora, ao se referir a citações decoradas que aparecem na redação sem relação efetiva com o tema.
Marli Siqueira Leite é colunista do PAINEL NEWSPEPÊ NUNES
Planejamento evita que o candidato se perca
Depois da leitura, vem o planejamento. Antes de escrever, o estudante deve definir o que apresentará na introdução, quais argumentos desenvolverá nos dois parágrafos seguintes e como construirá a conclusão.
A introdução, segundo Marli, deve reunir três elementos: apresentação do tema, problematização e tese. A primeira frase precisa ser relevante e específica. Expressões genéricas, como dizer simplesmente que “o mundo está muito violento”, não ajudam a sustentar uma argumentação consistente.
No desenvolvimento, a recomendação é apresentar argumentos fundamentados. O candidato pode partir de uma ideia geral, como uma lei ou a reflexão de um especialista, e relacioná-la a situações concretas.
O segundo parágrafo também pode trazer uma contraposição. Se o estudante aponta avanços em determinada área, por exemplo, pode reconhecer os desafios que ainda persistem.
Proposta de intervenção exige cinco elementos
A conclusão merece atenção especial porque inclui a proposta de intervenção, componente que vale 200 pontos na avaliação da redação.
Marli destaca cinco elementos que precisam aparecer:
- Agente: quem será responsável pela ação.
- Ação: o que será feito.
- Meio: como a iniciativa será executada.
- Finalidade: para que a medida será realizada.
- Detalhamento: uma informação adicional que explique ou complemente a proposta.
A professora recomenda evitar expressões vagas. Em vez de atribuir a responsabilidade genericamente ao Estado, o candidato deve identificar o órgão ou a esfera de governo adequada à questão apresentada.
A proposta também precisa ser concreta, coerente com os problemas discutidos no texto e respeitar os direitos humanos.
Tecnologia e educação entre os possíveis eixos
Ao comentar os assuntos que podem aparecer na prova, Marli ressalva que ninguém consegue prever o tema exato. Ainda assim, considera importante que os candidatos acompanhem debates relacionados à educação, à tecnologia e aos diferentes grupos etários, como crianças, adolescentes e idosos.
A tecnologia, em particular, pode aparecer associada a diferentes questões, mesmo que não seja o tema central da redação. A professora chama atenção para a presença crescente do ambiente digital e da inteligência artificial na vida cotidiana.
Ela também recomenda que os estudantes consultem a lista de possíveis eixos temáticos, leis e repertórios publicada em sua coluna no PAINEL NEWS.
Não deixe a redação para o fim
Uma das recomendações finais é começar pela redação, avançando até o rascunho antes de seguir para as demais questões. A revisão e a reescrita podem ficar para o momento final, com a reserva de 20 a 30 minutos.
Para Marli, deixar a produção do texto para os últimos minutos aumenta a pressão e prejudica a qualidade do trabalho.
A orientação é simples: ler com atenção, planejar, escrever, revisar e reescrever. Mais do que memorizar citações ou tentar adivinhar o tema, o candidato precisa demonstrar capacidade de argumentar, organizar ideias e apresentar uma solução coerente para a questão proposta.