Grupo Andora leva a cultura capixaba ao mundo e se prepara para festival na Colômbia
Coletivo capixaba une formação, pesquisa e produção artística para levar manifestações tradicionais a escolas, comunidades e palcos nacionais e internacionais
Por Leandro Manhães
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 4 min de leitura
A dança pode preservar tradições, aproximar gerações e transformar trajetórias pessoais. É a partir dessa perspectiva que o Grupo Andora, projeto de ensino, pesquisa e extensão da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), constrói uma história de valorização da cultura popular brasileira. Criado em 2008, no Centro de Educação Física e Desportos (CEFD), o coletivo capixaba une formação, pesquisa e produção artística para levar manifestações tradicionais a escolas, comunidades e palcos nacionais e internacionais.
Com 18 anos de trajetória, o Andora reúne atividades educativas, oficinas gratuitas e uma companhia de dança com repertório de 25 coreografias. A atuação ultrapassa os limites da universidade e alcança diferentes públicos, conectando conhecimentos acadêmicos aos saberes das comunidades tradicionais.
O próximo capítulo dessa história será escrito na Colômbia. Entre os dias 5 e 15 de novembro de 2026, o grupo tem participação prevista no XV Festival Internacional AMERICADANZA – Raíces danzadas del mundo, evento que reunirá delegações de diferentes países em torno das expressões da dança tradicional.
Da universidade à comunidade
O Andora surgiu com a proposta de transformar a cultura popular em uma experiência de aprendizagem que vai além dos livros e dos registros escritos. Por meio de pesquisas junto às comunidades tradicionais, o projeto sistematiza danças, músicas e brincadeiras populares, desenvolve materiais didáticos e compartilha conhecimentos em cursos, oficinas e apresentações.
A iniciativa também busca formar professores e educadores para trabalhar com as manifestações populares em escolas e outros espaços de ensino. Desde 2018, oferece oficinas gratuitas e abertas à comunidade, com vivências voltadas principalmente às expressões culturais capixabas e brasileiras.ㅤ
ㅤ

Para o diretor artístico e coordenador do grupo, Antônio Carlos Moraes, a proposta é fazer da própria dança um instrumento de transmissão de conhecimento.
“O Grupo Andora nasce para ser uma didática viva da cultura popular. Em vez de fazermos material didático escrito, nós mesmos reproduzimos e levamos isso para as escolas e para o público”. - Antônio Carlos Moraes
A experiência reúne estudantes de graduação e pós-graduação, professores da educação básica e pessoas da comunidade interessadas nas manifestações tradicionais. O resultado é um ambiente de troca entre diferentes gerações, experiências e formas de expressão.
Dança como acolhimento e transformaçãoㅤㅤ

Além da dimensão artística e educativa, o Andora ocupa um lugar importante na vida de quem participa de suas atividades. Para a participante Márcia dos Santos Neves, integrante desde 2023, o encontro com a dança teve um significado de cura profunda:
“Eu costumo dizer que a dança me salva... Me salvou quando eu tive um câncer e quando me recuperei. Em 2023, eu estava passando por uma questão familiar muito difícil, de violência doméstica, e precisava me reconectar comigo mesma. Mais uma vez, a dança me salvou”.
O depoimento revela uma dimensão do trabalho que vai além das apresentações: a criação de espaços de convivência, expressão e pertencimento. Ao reunir pessoas com histórias distintas, o grupo permite que a dança seja vivenciada tanto como manifestação cultural quanto como experiência coletiva.
Gestão cultural e continuidade do projeto
A expansão das atividades também exigiu uma estrutura institucional capaz de dar suporte às produções e às viagens. Em 2016, foi formalizada a Associação Cultural Andora, responsável por oferecer apoio jurídico e administrativo à iniciativa, incluindo a gestão de editais e os procedimentos necessários à realização de projetos e deslocamentos.
Em 2020, a associação recebeu o reconhecimento como Ponto de Cultura, passando a integrar a Rede Cultura Viva. A conquista reforçou o compromisso com a democratização do acesso à cultura, a diversidade e a promoção dos direitos culturais.
À frente da associação está Laís Israel da Cruz, que ingressou no projeto quando cursava Educação Física, em 2014, e posteriormente assumiu a presidência. Para ela, a gestão envolve desafios burocráticos, mas também representa uma oportunidade de contribuir diretamente para o fortalecimento da cultura.
“É muito gratificante estar de frente e ser um viés, junto com a sociedade, de fortalecer a cultura”. - Laís Israel da Cruz
A experiência evidencia como a continuidade de iniciativas culturais depende tanto da produção artística quanto da organização institucional, da articulação comunitária e da busca por condições para manter as atividades.
Copa do Mundo, Europa e América Latina
Ao longo de sua trajetória, o Grupo Andora levou manifestações da cultura popular brasileira a diferentes regiões do país e ao exterior. Um dos momentos marcantes ocorreu em 2014, quando representou o Espírito Santo na cerimônia de abertura da Copa do Mundo, em Manaus (AM).
No cenário internacional, o coletivo passou por países como França, Portugal, Itália, Chile e México. Na França, apresentou-se no College Doctoral Européen, vinculado à Universidade de Estrasburgo.
ㅤ

As viagens ampliaram o alcance do trabalho desenvolvido na Ufes e criaram oportunidades para compartilhar expressões culturais brasileiras com públicos de diferentes contextos. No Brasil, o grupo também participou de festivais nacionais de folclore em estados como São Paulo, Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas Gerais.
O repertório da companhia inclui 25 danças, apresentadas em espetáculos com duração entre cinco minutos e uma hora e meia. A variedade de formatos permite adaptar as produções a diferentes eventos e espaços, mantendo o vínculo entre pesquisa, criação artística e difusão cultural.
Mais do que apresentar coreografias, o Andora procura contextualizar as manifestações populares e reconhecer os conhecimentos presentes em suas músicas, movimentos, festas e tradições.

Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.




