Medicina além dos diagnósticos: histórias que transformaram médicos do ES
Profissionais que atuam no Espírito Santo compartilham experiências e aprendizados construídos ao longo da relação com os pacientes
Por Rodrigo Péret
Repórter Multimídia · · Atualizado em · 5 min de leitura
A medicina mudou profundamente nas últimas décadas: os exames estão mais precisos, os tratamentos mais modernos e novas tecnologias ampliaram as possibilidades de diagnóstico e recuperação dos pacientes. Mas há uma parte importante da profissão que não se aprende apenas nos livros ou nas faculdades: as lições que surgem do contato com as pessoas atendidas.
Neste domingo (18), o Brasil comemora o Dia do Médico, e o PAINEL NEWS conversou com cinco profissionais que atuam no Espírito Santo e que compartilharam experiências que marcaram suas trajetórias. Entre diagnósticos difíceis, histórias de superação e décadas de dedicação à saúde, eles mostram como a escuta, a empatia e a confiança continuam essenciais, mesmo diante dos avanços da ciência.
Uma lição de vida diante de um diagnóstico difícil

Para a geriatra Fernanda Sperandio, da MedSênior, uma das experiências mais marcantes da carreira aconteceu durante o acompanhamento de uma paciente diagnosticada com câncer de mama. A médica conta que comunicar a doença foi um momento delicado, diante das incertezas e dos receios que acompanham esse tipo de notícia. Na consulta seguinte, Fernanda quis saber como a mulher estava enfrentando a situação, não apenas fisicamente, mas também emocionalmente.
“Ela me respondeu: doutora, é a minha fé que está me ajudando. Estou pedindo a Deus sabedoria para passar por isso”, recorda. A resposta fez Fernanda refletir sobre a importância de compreender a maneira como cada pessoa enfrenta seus desafios.
“Naquele momento, eu percebi que o nosso papel como médico vai muito além de fazer um diagnóstico e indicar um tratamento. A gente também precisa saber acolher, ouvir e estar ao lado do paciente quando ele recebe uma notícia que transforma a vida dele”, afirma.
Para a geriatra, aquele encontro mostrou que a relação entre médicos e pacientes é uma troca. Ao mesmo tempo em que oferecem cuidados, os profissionais também aprendem com as experiências e a força das pessoas que acompanham.
Histórias que vão além dos consultórios

A dermatologista Luana Vieira Mukamal, também da MedSênior, compartilha dessa percepção. Ao longo dos atendimentos, ela descobriu que as conversas com os pacientes frequentemente revelam histórias pessoais que dificilmente conheceria em outras circunstâncias. “A gente ouve histórias de pessoas com as quais jamais esbarraria pela vida e fica sabendo de coisas que, muitas vezes, nunca foram compartilhadas com ninguém”, conta.
Para Luana, a disposição dos pacientes em dividir suas experiências representa uma demonstração de confiança e reforça a importância de um atendimento que considere o indivíduo para além da doença. “É um voto de confiança que recebemos dos nossos pacientes. Uma troca bonita e potente. A gente ajuda, mas é ajudado em muitas situações”, destaca.
Quase quatro décadas de transformações na medicina

Com 38 anos de profissão, o ginecologista e obstetra Márcio Almeida, CEO da Bluzz Saúde, acompanhou o desenvolvimento de recursos que transformaram a prática médica. Formado em 1988, ele lembra que, no início da carreira, os profissionais dispunham de menos exames e dependiam ainda mais da avaliação clínica e do contato direto com os pacientes. “Antigamente, a gente era mais próximo dos pacientes. Havia menos exames, e o médico precisava colocar mais a mão no paciente”, recorda.
Embora reconheça os benefícios dos avanços científicos, Márcio avalia que a tecnologia também trouxe desafios para a relação entre médicos e pacientes. Para ele, o acolhimento e a atenção individualizada precisam continuar presentes, independentemente dos recursos disponíveis. “Acredito muito na humanização da medicina, em atender as pessoas com cuidado e carinho”, afirma.
Uma carreira acompanhando gerações

O pediatra Gustavo Pereira do Vale, da Unimed Sul, também testemunhou grandes mudanças na saúde ao longo de quase cinco décadas de profissão. No início de sua carreira, doenças infecciosas como sarampo, poliomielite, meningite e coqueluche representavam ameaças importantes à saúde infantil. A desnutrição e a falta de saneamento também estavam entre os desafios enfrentados pelos profissionais.
Com o passar dos anos, o avanço das vacinas, dos tratamentos e das condições de saúde pública contribuiu para transformar esse cenário. Natural de Minas Gerais, Gustavo cursou Medicina em Vitória e chegou a Venda Nova do Imigrante em 1980. No município, trabalhou em hospital, posto de saúde e consultório, construindo vínculos com a comunidade e acompanhando diferentes gerações de pacientes. Apesar das mudanças na profissão, ele acredita que algumas características permanecem indispensáveis.
“Para exercer a medicina é necessário empatia, dedicação, doação. Condições que são permanentes”, resume.
Confiança em tempos de informação digital

Para a médica Zeila Pimenta, especialista em Clínica Médica da Unimed Sul, uma das principais transformações da profissão está na maneira como médicos e pacientes têm acesso ao conhecimento. Formada em 1988, ela lembra que, no início da carreira, a atualização profissional era mais difícil e exigia maior investimento de tempo e recursos.
Hoje, com informações sobre saúde disponíveis na internet, os pacientes chegam às consultas mais informados e com questionamentos sobre diagnósticos e tratamentos. Na avaliação de Zeila, essa mudança exige atualização constante dos profissionais e uma relação baseada no diálogo e na confiança. “Se o paciente não confiar na palavra e nas decisões do médico, o tratamento não evolui”, destaca.
Depois de concluir sua formação no Rio de Janeiro, a médica se mudou para Marataízes em 2003, onde atuou por mais de duas décadas. Também participou da formação de novos profissionais na Faculdade de Medicina Multivix, em Cachoeiro de Itapemirim, até o primeiro semestre de 2026.
As experiências dos cinco médicos mostram que a profissão não se transforma apenas com novos equipamentos, medicamentos e descobertas científicas. Ela também é construída a partir das histórias compartilhadas durante os atendimentos. Se a tecnologia oferece ferramentas cada vez mais avançadas para cuidar da saúde, são a capacidade de ouvir, o respeito e a confiança que ajudam a fortalecer a relação entre médicos e pacientes. E, nesse encontro, quem dedica a vida a cuidar também encontra oportunidades de aprender, se emocionar e enxergar a própria profissão de uma maneira diferente.

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