Mãe atípica! Eu? Como assim?
Por Nubia Rosetti
Alô, Dra! · · Atualizado em · 3 min de leitura

Bem, hoje resolvi falar sobre algo que muitos ouvem dizer, sobre ser mãe de uma criança que apresenta algum transtorno do neurodesenvolvimento e assim , essa “denominação” tornou-se tão frequente que, em muitos contextos, tornou-se banalizada. Mas enfim, explico o motivo pelo qual optei em falar sobre isso. Mesmo trabalhando com crianças que apresentam transtornos variados a mais de 20 anos, demorei para entender o quanto isso representa: a maternidade atípica!
Sou mãe de duas lindas e bondosas meninas que têm o Transtorno do Déficit de Atenção – TDAH. Nunca fui de ficar falando sobre isso, mas não por vergonha , e, sim, porque via crianças com autismo em uma situação tão complicada que não me dava o direito de reclamar da condição que eu vivia. Sempre ouvi, até mesmo de outras mães que “ah, elas só tem TDAH... ainda bem", como se fosse possível comparar um transtorno ao outro. Mas isso não é real.
Aos poucos entendi e me permiti entender que cada dor é uma dor e que minha dor (em alguns momentos, quando a sinto) é legítima. Hoje, por mais amor que se tenha, aquele amor realmente incondicional de mãe, o cansaço, a exaustão aparece frequentemente em mães que têm filhos com TDAH. Muitos não sabem, mas grande parte das crianças com TDAH apresentam déficit no que chamamos de “controle inibitório” e é aqui que mora um dos grandes problemas.
Esse déficit pode ocasionar manifestações frequentes de impulsividade, dificuldades na autorregulação comportamental e emocional, baixa tolerância à frustração, interrupções constantes, dificuldade em aguardar a própria vez e em inibir respostas imediatas diante de determinadas situações.
Quantas vezes você já tentou conversar com uma amiga, ou mesmo com seu marido dentro de casa, precisando resolver um problema e não conseguiu por que seu filho interrompia a todo instante?
Quantas vezes desejou que um tio ou uma tia o buscasse exatamente naquele fim de semana onde o trabalho foi estressante e você só queria dormir?? E ainda assim, sentiu culpa por parecer que queria distância de seus filhos ???
Tudo isso compromete a rotina familiar, exigindo dos responsáveis intervenções frequentes, supervisão contínua, repetição do que foi orientado etc. Daqui surge um sentimento de esgotamento gerando um estresse parental que parece não ter solução!
Eu costumo dar algumas orientações que em alguns contextos podem ajudar muito o cotidiano de cada família. Primeiramente, é necessário saber se seu (sua) filho(a) tem TDAH e qual sintoma é predominante. No TDAH temos a predominância da desatenção, impulsividade e hiperatividade. Essas características podem aparecer de forma isolada ou combinada. A partir dessa avaliação, é possível traçar estratégias mais assertivas que tornem o dia-a-dia mais agradável.
Em segundo lugar, sempre aconselho a olhar para seu (sua) filho(a) com aquele primeiro olhar que teve quando ele nasceu. Você lembra? Um olhar sem julgamento ou qualquer tipo de ressentimento, só que agora entendendo que ele(a) está crescendo e que tudo pode passar. Seu (sua) filho(a) só terá 4 anos uma vez na vida, 6 anos , uma vez na vida , 10 , 11, 14... e a cada fase teremos desafios diferentes que não temos outra opção a não ser encarar, participar, orientar, educar e ser dura quando necessário! Mas o amor não muda!
Hoje , minha filha mais velha tem 16 anos, 1,84 m de altura, é maior que eu e ainda, algumas vezes, dorme comigo, deita em meu colo esperando afago em seu cabelo. Nessa hora tento esquecer a malcriação enorme que ela fez, pois queria comprar algo e eu não deixei, e a olho sem julgamento... Como no dia que ela nasceu!

Nubia Rosetti
Alô, Dra! · Alô Dr.!
Fundadora do Instituto AFECIA. PHD em Educação Especial UFES/PPGE com ênfase em Transtornos do Neurodesenvolvimento. Doutora em Educação Especial UFES/ PPGE. Linha de pesquisa : Educação Especial e processos inclusivos. Neuropsicopedagoga, Psicopedagoga, Analista do Comportamento Psicóloga com Especialização em TCC e ABA.
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